Alívio pelo menos na inflação

Depois de um susto nos primeiros meses do ano, as pressões inflacionárias cederam, atenuadas principalmente pela normalização do custo dos alimentos

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

27 de junho de 2019 | 03h00

Se inflação bem comportada bastasse para justificar um corte de juros, a decisão poderia ser tomada com segurança na próxima reunião do Copom, o Comitê de Política Monetária do Banco Central (BC). Depois de um susto nos primeiros meses do ano, as pressões inflacionárias cederam, atenuadas principalmente pela normalização do custo dos alimentos. A melhora acaba de ser confirmada pela alta de apenas 0,06% do IPCA-15. Considerado uma prévia da inflação oficial, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo – 15 é medido entre o meio de um mês e o meio do mês seguinte.

Com a nova alta, o IPCA-15 acumulou variação de 2,33% no ano e de 3,84% em 12 meses. No período até o mês anterior, o aumento havia chegado a 4,93%. Parece clara a acomodação gradual no rumo da meta fixada para este ano, 4,25%. A mesma tendência tem sido observada no IPCA, a principal medida oficial de inflação. Em maio, esse indicador subiu 0,13%. Em abril havia aumentado 0,57%. Com esse recuo, a taxa acumulada em 12 meses passou de 4,94% para 4,66%, acima da meta, mas apontando um caminho desejável.

Ao variar 0,06% em junho, o IPCA-15 ficou muito perto da estabilidade. Só 2 de seus 9 grandes componentes subiram mais que 0,50%. Habitação aumentou 0,52%. Saúde e cuidados pessoais, 0,58%. Os demais itens com variação positiva pouco aumentaram. Os preços do item alimentação e bebidas caíram 0,64%. Tinham ficado estáveis em maio e subido 0,92% em abril.

Apesar do recuo em junho, os preços de alimentação e bebidas ainda acumularam alta de 4,72% em 12 meses, um resultado muito ruim por causa do peso desses produtos no orçamento das famílias, especialmente das mais pobres. Comida com preços contidos é duplamente importante: assegura uma condição básica de bem-estar e abre alguma folga no orçamento doméstico. Essa folga facilita a diversificação do consumo, também um fator de bem-estar, e assim contribui para a ampliação da atividade econômica.

O consumo contido é um forte entrave a uma recuperação mais firme e mais veloz da economia. As dificuldades do varejo transmitem-se à indústria, freiam sua produção e isso resulta em escassez de vagas. O desemprego ainda muito alto, com mais de 13 milhões de desocupados segundo as últimas informações, aumenta a insegurança das famílias e reforça as travas à reativação dos negócios. Travando o consumo e a produção, o desemprego se mantém e até pode aumentar.

Nenhuma iniciativa surgiu neste semestre para romper esse movimento circular. O governo já anunciou mais de uma vez a intenção de só criar estímulos – como a liberação de recursos do Fundo de Garantia – depois de aprovada a reforma da Previdência. Até lá os juros básicos deverão permanecer em 6,50%, mesmo com inflação contida e economia em marcha muito lenta.

Segundo dirigentes do BC, qualquer afrouxamento da política monetária só poderá ocorrer quando houver maior segurança quanto à execução de ajustes e reformas, a começar pela da Previdência. Também será preciso avaliar as expectativas de inflação mesmo depois de aprovada a reforma das aposentadorias.

É preciso, ainda, levar em conta a relação entre desemprego e inflação baixa. Ao frear o consumo, a desocupação também modera os preços. Esse jogo tenderá a mudar quando mais pessoas estiverem ganhando salários e podendo ir às compras. Mas esse efeito provavelmente só ocorrerá depois de um razoável intervalo.

A desocupação ainda se manterá alta no início da reativação e, além disso, as empresas têm muita ociosidade em máquinas e instalações. Se nenhum novo problema surgir, a recuperação poderá ocorrer sem muita pressão inflacionária no início. Os técnicos do BC, de toda forma, deverão avaliar esses detalhes antes de mudar os juros e demais condições de crédito. Enquanto nada se faz para romper o círculo da estagnação e do desemprego, pelo menos a inflação contida torna menos dura a travessia até a reanimação dos negócios.

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