Alto custo de produção

Consideradas satisfatórias pelo governo, por alguns setores da indústria e pelo movimento sindical - mas não, certamente, pelos consumidores -, as mudanças no acordo comercial entre o Brasil e o México, para a redução da entrada de veículos mexicanos no mercado interno nos próximos três anos, apenas contornam um grave problema estrutural da economia brasileira. Os automóveis mexicanos estavam conquistando espaços maiores no mercado brasileiro não por causa de eventuais imperfeições no acordo entre os dois países, mas por uma razão muito mais simples, e que o consumidor identificou rapidamente: eles custam menos do que os similares produzidos no Brasil.

O Estado de S.Paulo

02 Abril 2012 | 03h08

O custo de produção de veículos no Brasil é um dos mais altos do mundo, como mostrou reportagem de Cleide Silva publicada no Estado (25/3), fato que, combinado com o câmbio favorável às importações, fez crescer nos últimos tempos a participação dos automóveis importados nas vendas no mercado doméstico.

É muito mais barato produzir um veículo no México do que no Brasil. Enquanto aqui o custo de manufatura de um modelo compacto é de cerca de US$ 1,4 mil, no México é de US$ 600, menos da metade. Os países asiáticos conseguem produzir a custos ainda menores (US$ 500 na Tailândia e US$ 400 na China), de acordo com dados compilados pela empresa internacional de consultoria PricewaterhouseCoopers (PwC).

Apesar do alto custo da produção no País - equivalente ao dos Estados Unidos e do Japão, países com padrões de vida e de renda muito mais elevados do que os nossos -, grandes investimentos têm sido anunciados e realizados na expansão da capacidade da indústria automobilística brasileira. No entanto, praticamente nenhum dos novos projetos tem como meta a transformação do Brasil em plataforma de exportações para outros países do hemisfério, porque, como mostram os números acima, é muito baixa a competitividade do País.

O que as grandes corporações internacionais pretendem é conquistar fatias no mercado brasileiro, que continua a crescer rapidamente e ainda tem muito espaço para se expandir, ao contrário do que ocorre nos países ricos, cujos mercados já estão saturados e, agora, enfrentam as dificuldades decorrentes da crise financeira internacional. Além disso, as medidas protecionistas adotadas pelo governo brasileiro, como o aumento da taxação das importações de veículos de montadoras ainda não instaladas no País, estão forçando a vinda de novos grupos.

O alto custo da produção de veículos é parte de um problema muito mais amplo, que afeta toda a produção brasileira. Os novos investidores no setor automobilístico, bem como as empresas que operam no País há mais tempo, têm consciência das imensas dificuldades para a realização de negócios no Brasil - apontadas seguidamente em relatórios internacionais.

A qualificação em muitos casos insuficiente do trabalhador e a rigidez das regras trabalhistas estão entre as causas do alto custo de produção da indústria automobilística brasileira. O responsável internacional pela pesquisa da PwC, Dietmar Ostermann, lembra que os trabalhadores americanos e chineses levam em média de 15 a 19 horas para produzir um automóvel. No Brasil, são necessárias de 26 a 30 horas, nas mesmas condições tecnológicas e para o mesmo padrão de produto. Isso eleva o peso do fator trabalho no custo de produção. Ainda no item das relações de trabalho, os encargos da folha de salários e a falta de flexibilidade das jornadas encarecem ainda mais o custo de produção.

Os impostos sobre equipamentos e máquinas, o alto preço da matéria-prima, que encarecem também os componentes, e as deficiências de infraestrutura, que elevam os custos logísticos, também contribuíram para encarecer o produto final.

As empresas que, apesar disso, investem no Brasil, fazem-no "porque não têm outra opção", adverte Ostermann. Quando as opções começarem a surgir, como certamente surgirão, ficará cada vez mais difícil atrair investimentos para uma economia de tão baixa competitividade.

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