Ameaça da dengue persiste

O Estado de S. Paulo

25 Outubro 2015 | 03h00

A grave situação vivida no primeiro semestre, especialmente em São Paulo, quando a incidência da dengue, com 367,8 casos por 100 mil habitantes, atingiu o nível de epidemia - índice de 300, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS) -, parece não ter servido de lição para todos os que têm uma parcela de responsabilidade no caso. Há sérios indícios de que o problema pode se repetir no próximo verão. As autoridades ainda não deram mostras de que saberão escolher acertadamente as prioridades que a escassez de recursos, decorrente da séria crise econômica por que passa o País, impõe.

Reportagem do Estado, com base em dados da Secretaria Estadual da Saúde, referentes ao período do início de julho ao fim de setembro, mostra que 81% dos municípios paulistas notificaram casos de dengue: 19.304 em 527 cidades, dos quais 4.542 confirmados. Assinale-se que essa é uma época de baixa incidência da doença. Na Região Nordeste, a situação não foi diferente. Essa é uma das razões pelas quais o Ministério da Saúde se mostra preocupado, pois vê nela um forte indício de que o País poderá viver nova epidemia da doença no ano que vem.

Os efeitos da crise econômica já se fazem sentir de maneira inquietante no comportamento das autoridades municipais, as que lidam mais de perto com o problema. Em vários municípios paulistas, entre os quais estão alguns em que os números da doença são mais preocupantes, as ações de combate à dengue já estão sendo afetadas. É o caso da adoção de meio expediente nas unidades de saúde para cortar custos. As equipes de agentes de saúde que visitam casas em buscas de criadouros do mosquito Aedes aegypti, transmissor da doença, para destruí-los, também estão sendo reduzidas pela mesma razão.

Em Ribeirão Preto, por exemplo, o trabalho de nebulização já não é mais feito durante todo o dia, mas apenas pela manhã, e o sindicato dos servidores municipais alerta que o combate eficiente ao mosquito exige a contratação de mais 130 agentes. Em São Carlos, por falta de recursos a prefeitura dispensou a empresa contratada para fazer a nebulização, mas ante a possível piora da situação promete contratar mais agentes. Também em Araraquara as equipes de combate à dengue estão trabalhando em meio período. Em Sorocaba, a prefeitura reduziu em duas horas o tempo de atendimento de 16 unidades de saúde e reduziu os grupos de combate ao mosquito.

Esses, como os demais municípios paulistas e de outros Estados, passam por reais dificuldades. O financiamento das ações de combate à dengue é feito principalmente pelo Ministério da Saúde, segundo o qual os recursos para esse fim, destinados às prefeituras neste ano, somarão R$ 1,25 bilhão. A Secretaria da Saúde de São Paulo diz já ter gasto neste ano R$ 62 milhões, R$ 12 milhões a mais do que nos anos anteriores, além de contratar mais 500 agentes para a Superintendência de Controle de Endemias (Sucen).

Está claro, porém, como mostra a evolução da doença, que as medidas que vêm sendo adotadas por aquelas prefeituras, que certamente não diferem das da maioria das outras de todo o País, indicam que todo o esforço delas, dos Estados e da União está longe de ser suficiente para evitar nova epidemia. Gerir corretamente a escassez de recursos que vive o País impõe aos governantes, em todos os níveis, a obrigação de fixar prioridades, o que em outras palavras significa privilegiar os setores mais sensíveis. Entre eles está a saúde e, nela, o combate à dengue ocupa hoje posição de destaque. E isso os prefeitos ainda não parecem ter entendido.

Outro ponto essencial é a participação ativa da população, já que os principais focos do mosquito transmissor estão nas casas. Sua colaboração é decisiva. O combate à dengue não pode ficar apenas por conta do poder público. O que ele pode e deve fazer, além do trabalho de nebulização e destruição dos focos do mosquito, é campanhas de esclarecimento para mostrar à população o papel que lhe cabe.

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