Ameaça de greve na Petrobrás

A queda de 42% do lucro da Petrobrás no terceiro trimestre, em relação ao mesmo período de 2010, em nada alterou a disposição dos petroleiros de reivindicar aumento real de salário de 10% e nominal de 17%, como mostrou reportagem no Estado de quarta-feira. Como afirmara, sexta-feira passada, o coordenador da Federação Única dos Petroleiros (FUP), João Antonio de Moraes, "a gente quer cobrar a Petrobrás", mesmo que isso afete "a rentabilidade da empresa".

O Estado de S.Paulo

20 Novembro 2011 | 03h06

Setembro é o mês do acordo coletivo dos funcionários da Petrobrás, que ofereceu um reajuste de 2,5% a 3,25% mais a inflação e elevou a proposta média de aumento nominal de 9% para 10,7%. É mais do que o aumento que a maioria dos trabalhadores brasileiros recebeu nos dissídios. Os bancos, por exemplo, que auferiram resultados elevados, fecharam acordo salarial prevendo aumento nominal de 9% para os bancários.

Sem acordo, os petroleiros ameaçam deflagrar uma greve geral, que pode paralisar as refinarias, em todo o País, se for bem-sucedida, e prejudicar o abastecimento nos postos, além das exportações da empresa. Até quarta-feira, sindicatos de petroleiros de seis Estados já haviam declarado apoio à greve, segundo a FUP.

Paralisações curtas, de algumas horas, já ocorreram desde o final de outubro, por exemplo, na sede administrativa da Petrobrás em Macaé e no Paraná. Trabalhadores terceirizados que constroem o Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro (Comperj), em Itaboraí, chegaram a interromper o trabalho, retornando após um acordo. Os funcionários da Refinaria de Paulínia (Replan) fizeram mobilização por causa da falta de rigor nos procedimentos de segurança da empresa.

O ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência da República, Gilberto Carvalho, disse que o governo faz um "esforço enorme" para evitar a paralisação, pois uma greve seria "muito negativa". O governo do PT tem-se mostrado dócil às reivindicações dos sindicalistas - que se incluem nas bases de apoio ao governo Dilma. Há alguns dias, a ministra do Planejamento, Miriam Belchior, evitou criticar os grevistas que paralisaram os Correios.

A decisão sobre a greve dos petroleiros será tomada na próxima terça-feira, segundo a FUP. O coordenador da entidade admite que há espaço para a negociação salarial e que o problema é a pouca disposição da empresa de reavaliar a política de segurança. Apenas neste ano, segundo a FUP, 16 trabalhadores morreram, dos quais 14 terceirizados. "A Petrobrás não permite a participação de representantes dos trabalhadores nas comissões que apuram os acidentes, só quando há mortes", reclamou Moraes.

O diretor financeiro e de Relações com Investidores da Petrobrás, Almir Barbassa, afirmou que a estatal provisionou R$ 600 milhões para atender ao acordo salarial, está preparada para eventuais paralisações e para "eliminar qualquer prejuízo à produção". De fato, foi o que ocorreu nos últimos dois anos. Em 2009, por exemplo, quando os trabalhadores da Petrobrás fizeram cinco dias de greve parcial, as operações foram mantidas na quase totalidade.

Os empregados da estatal desfrutam de benefícios inimagináveis para a quase totalidade dos trabalhadores brasileiros, como planos generosos de assistência médica e de aposentadoria complementar pelo fundo Petros, além da distribuição de lucros por intermédio do PLR, cabendo R$ 16,5 mil a cada trabalhador.

Há pouco, a Petrobrás conseguiu uma redução de tributos - diminuiu a Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico (Cide) - sem que se alterassem os preços ao consumidor. Ou seja, o Tesouro socorreu a estatal.

Aumentos salariais generosos, como os que pretendem os trabalhadores da Petrobrás, são incomuns nas empresas privadas, sobretudo quando os resultados contábeis são declinantes e as empresas estão envolvidas em gigantescos planos de investimento.

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