Anatomia da esperança

Fiz várias descobertas no embate físico e emocional com uma mastectomia. Alguns achados corriqueiros: o câncer de mama representa mais de 7% de todas as formas da doença maligna e mata cerca de 12 mil mulheres por ano no Brasil. Ainda assim, nunca tinha pensado que se tornaria meu aquele destino comum a tantas brancas, negras, cristãs, judias, agnósticas, heterossexuais, lésbicas, gordas, magras, bancárias, donas de casa, cozinheiras e intelectuais. Nunca. Até que... num dia bonito de julho, a radiologista me pediu que repetisse uma mamografia.

Eliana Cardoso

26 Setembro 2012 | 03h21

Outros achados foram mais novidadeiros. Embora conhecendo longa lista de escritoras e poetas vítimas do câncer de mama, surpreendi-me com o acúmulo de poemas intitulados Mastectomia. Os mais difíceis me acordaram para o prazer de usar o cérebro e festejei a sequência de 12 composições - The Mastectomy Poems - que fecham o livro de Alicia Ostriker The Crack in Everything. Como canta Leonard Cohen, existe uma rachadura em todas as coisas e é por ela que entra a luz. Dizem os versos de Alicia: "Apertei sua mão./ Você anuiu, breve, confiante,/ Um capitão de navio./ E lá me deitei, mapa da baía,/ Sem recifes nem bancos de areia.(...)/ A anestesia me despediu, como a desempregados.(...)/ Você esfaqueou o seio, o picou e dividiu/ Como a carne rubi da melancia./ Sério na sua linha de trabalho, se excitou um pouco./ Coletou o risco nos ductos./ Coletou os ductos./ Às colheradas, cavou a gordura, mamilo e tudo./ Eliminou probabilidades e pinçou/ As quase insignificantes células,/ Que ficariam - talvez não - / Adormecidas para sempre".

Partindo de experiências parecidas, cada poeta oferece perspectivas diferentes sobre a perda, o estrago e o medo. Na voz poderosa da poeta irlandesa Eavan Boland, o horror da mutilação transforma-se em raiva contra o cirurgião e sua equipe: "Arrancaram/ O que primeiro os saciou/ E que desde então odiaram:/ De veias azuladas,/ E abóboda branca,/ Casa/ De deslumbre e/ Umidade dos sonhos./ Achatada para a pilhagem,/ Para o malabarismo do saque,/ Sou paisagem bárbara./ Deles, o verdadeiro espólio".

Como entender tamanha revolta contra os médicos? Jerome Groopman - catedrático da escola de medicina de Harvard, autor de A Anatomia da Esperança e de Como os Médicos Pensam e coautor de Your Medical Mind (disponível no Kindle) - aponta falhas no comportamento da profissão, explicando que a educação clássica de um médico começa não com um introito aos vivos, mas com a exposição aos mortos.

Ele mesmo, quando estudante, após a palestra de abertura sobre a anatomia humana, se viu transferido para uma gelada sala subterrânea onde dezenas de cadáveres cobertos por folhas de plástico foram divididos entre os alunos - um corpo para cada grupo de quatro. Ao longo das semanas os grupos dissecaram músculos, nervos e tendões, amarrando cordas finas ao redor de cada parte isolada, com uma pequena etiqueta para identificar o objeto.

Concluída a dissecação numa tarde de outono, Groopman caminhava para o dormitório quando olhou para baixo e viu alguma coisa. No começo não sabia o que era, mas logo percebeu que um pedaço espesso da carne do seu cadáver caíra da mesa e se grudara na ponta do sapato. "Fiquei imóvel por um longo tempo", ele escreve, "e me senti como se tivesse cometido um sacrilégio, violado uma fronteira, removendo os mortos daquele lugar tão apropriadamente escondido, onde o cadáver era intencionalmente mascarado para não ser uma pessoa". E, assim, Groopman se viu tomado pelo sentimento de que ele mesmo tinha de ser mais do que um conjunto de órgãos, músculos e pele. De que possuía alguma dimensão diferente e acima do físico.

Mas poderia ele duvidar dos reducionistas? Seria possível que o homem fosse mais do que moléculas interagindo? Poderia questionar a tese de que o sentimento de autoconsciência não passa de ilusão? Refez os passos, devagar, para um pequeno jardim atrás da escola médica, com cuidado para não deslocar o pedaço de carne. Destacou o fragmento do sapato e cobriu-o com uma espessa camada de terra.

Groopman deu-se conta de que a medicina o colocara diante do mistério de nossa existência. A sensação daquela hora se repetiria ainda em muitas ocasiões. Como se repete para os que fazem da medicina um chamado, e não apenas um trabalho. E como se repete para cada um de nós em momentos cardeais: o nascimento do filho, a morte da mãe, o bilhete de amor, o neto no colo...

Em A Anatomia da Esperança Groopman relata: "Anos atrás eu tratava de uma mulher com câncer de mama. Cirurgia, radiação e quimioterapia. Cada tratamento induziu apenas remissão temporária. O câncer atacou fígado e ossos. Fui vê-la. Segurei-lhe a mão e descrevi como o câncer se espalhara. 'Bárbara', disse-lhe, 'temos sido honestos um com o outro. Não conheço nenhum remédio que possa ajudá-la neste momento'. Por longo tempo ficamos juntos em silêncio. Então, ela virou-se para mim: 'Não, Jerry. Você ainda tem algo para me dar. Você tem a medicina da amizade'."

Ao contrário de Bárbara, tenho bons prognósticos. E recebi de meus cirurgiões a medicina da amizade. Ao longo de muitas semanas o cirurgião plástico me recebeu mais vezes em seu consultório do que as impostas pelos cuidados da medicina moderna. Respondendo a minhas perguntas, mostrou-me livros com diagramas e fotografias de reconstruções mamárias. Revelou-se capaz de me entender como pessoa, e não apenas como um corpo doente.

Vou aprendendo, pouco a pouco, a conviver com 700 gramas de silicone: a aceitar - ou quase aceitar - esses dois sacos de gelo seco no lugar das casas gêmeas de antigos banquetes. E pratico o ritual da poesia. Os poemas aliviam o desgosto - talvez não o sofrimento do poeta -, mas, tempos depois, o desta leitora.

* PH.D. PELO MIT,  É PROFESSORA TITULAR DA FGV-SÃO PAULO

SITE: WWW.ELIANACARDOSO.COM

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