Angústias tucanas

Fará bem a cúpula do partido em tentar conter os que advogam o desembarque do governo

O Estado de S.Paulo

09 Junho 2017 | 03h08

Independentemente das atribulações que tem enfrentado, muitas delas decorrentes de seus próprios erros e contradições na área política, o governo instalado em Brasília é hoje o mesmo que assumiu há pouco mais de um ano em decorrência do impeachment de Dilma Rousseff. Naquele momento, o PSDB, até então na oposição, decidiu que era necessário aliar-se ao presidente Michel Temer, com forte participação no primeiro escalão, para dar a necessária contribuição ao programa de reformas que a grave crise econômica e social impunha. Hoje, um contingente significativo dos tucanos está obcecado pela ideia de desembarcar do governo – com a ressalva da manutenção do apoio às reformas – sob o argumento de que Temer perdeu a credibilidade para permanecer no cargo.

Mas o fato é que, independentemente dos erros e contradições que levaram o presidente Temer a um enorme desgaste político, o governo da República permanece o mesmo, com as mesmas metas reformistas que justificaram, há 12 meses, a adesão dos tucanos. Diante destes se coloca, então, a alternativa de pensar no País acima de tudo e continuar lutando de fato, sem tergiversação, para viabilizar as reformas que a crise exige – a começar pela trabalhista e pela previdenciária, que já tramitam no Congresso – ou preservar, “pragmaticamente”, o que muitos deles entendem como legítimos interesses eleitorais e renegar o compromisso assumido com a Nação após a queda de Dilma.

A renúncia ou a deposição de Michel Temer não teriam o dom de “passar o Brasil a limpo”. Esta é uma perspectiva que só poderá ser adequadamente contemplada a partir das eleições diretas que estão programadas para daqui a 16 meses. E tanto mais promissoras serão essas perspectivas quanto maior sucesso obtiver a missão a que Temer se propõe, de preparar o caminho para as amplas e profundas reformas que necessariamente terão de ser implementadas e aprofundadas por um novo governo com a legitimidade renovada pelo poder das urnas.

Isso não significa que o governo do presidente Michel Temer seja ilegítimo, como alegam muitos daqueles que o elegeram e reelegeram vice-presidente, quando isso lhes foi conveniente do ponto de vista eleitoral e nos arranjos políticos para a formação da equipe de governo. Mas o fato é que desde o início do segundo mandato de Dilma – já marcado por forte evidência da deterioração da economia – a conjuntura política igualmente se deteriorou, exatamente a partir do momento em que o PT decidiu “enquadrar” seu principal aliado. Além disso, ao desmentir na prática as mentiras que haviam ajudado sua reeleição, Dilma revelou-se por inteiro. Em poucos meses, a pequena maioria de brasileiros que a reelegeram em 2014 transformou-se em ampla maioria a exigir seu afastamento. Esse estado de espírito antipetista foi confirmado no pleito municipal do ano passado. Cabe agora aguardar as eleições gerais do ano que vem para saber o que os brasileiros querem.

Diante desse quadro, fará bem a cúpula tucana se agir com prudência e tentar conter os ânimos mais exaltados que advogam o imediato desembarque do governo. É exatamente nos momentos mais agudos de uma crise que se revela a consistência das convicções políticas.

A qualquer momento, por força da intensidade da crise interna, os tucanos terão de anunciar uma decisão sobre a delicada questão da posição a ser adotada em relação ao governo no qual ocupam hoje ministérios importantes como o de Governo, Relações Exteriores e das Cidades. Seria conveniente que atentassem ao que escreveu Fernando Henrique Cardoso no Estado, mirando um alvo mais alto e amplo, mas certamente de olho também nas angústias existenciais de seus correligionários: “Quem porventura pretenda resolver a presente crise por meio de um conchavo encontrará na força das instituições, no ativismo da mídia e na indignação do povo barreira às soluções inventadas, por mais engenhosas que sejam”.

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