Antes tarde do que nunca

A explicação, que parece risível, é dada de maneira séria por autoridades: as obras da Copa de 2014 e da Olimpíada de 2016 não sofrerão atrasos. Vai dar tudo certo. Aos fatos: a Arena das Dunas, em Natal (RN), aguarda propostas de parceria. Outros empreendimentos estão em fase inicial. E mais: dos 12 estádios que serão construídos, 5 correm o risco de se transformar em "elefantes brancos" por falta de torcedores suficientes e pelos altos custos de manutenção.

Gaudêncio Torquato, O Estado de S.Paulo

10 Julho 2011 | 00h00

A novela sobre a preparação do Brasil para sediar os dois maiores eventos esportivos mundiais segue um enredo que tem tudo para se tornar sucesso de público e de mídia, por exibir vasto painel do temperamento nacional. Abriga traços do caráter, a começar pelo desleixo, passando pela improvisação, entrando pelo jeitinho e chegando à malandragem, pela inferência de que o atraso no calendário de obras é algo deliberado. Teria o fito de driblar a montanhosa burocracia e, desse modo, livrar a licitação de projetos de complicações, liberar recursos de forma ágil e no fluxo adequado, garantindo a satisfação de todos os "jogadores" da copa preparatória. O afogadilho seria sinônimo de esperteza, e não de improvisação, sob a lógica invertida de "não fazer hoje o que pode ser feito amanhã". E assim o Brasil pode levar a taça de campeão de novo escopo da administração: "a emergência programática".

De início, a lembrança: o Brasil foi escolhido para ser a sede da Copa do Mundo de Futebol em 30 de outubro de 2007. De lá para cá, em termos práticos o resultado fica próximo de zero. É evidente que, sendo a paixão nacional, o futebol abre intenso foro de debates, acende fogueiras de vaidades e impulsiona visões conflitantes entre os atores envolvidos na organização do megaevento: times e torcidas, cartolas, cidades-sede da Copa, autoridades governamentais, políticos, empreiteiras e a formidável malha de prestadores de serviços. Cada qual quer tirar proveitos - e proventos - da gigantesca teia de interesses, sabendo-se que não haverá rigidez no controle dos orçamentos.

Lembre-se de que as obras para os Jogos Pan-Americanos do Rio de Janeiro, em 2007, foram orçadas inicialmente em R$ 400 milhões. Acabaram em R$ 3,4 bilhões, deixando, ainda, extensos espaços ocupados por "elefantes brancos". E qual será o orçamento para os dois eventos? Uma incógnita. A decisão de tornar esse orçamento sigiloso - aprovada pela Medida Provisória 527, que cria o Regime Diferenciado de Contratações - faz parte da estratégia de evitar obstruções, o que, para uns (empreiteiros, por exemplo), seria medida de bom senso e, para outros (organizações não governamentais), brecha para os dutos da corrupção.

Se houver recursos a rodo, é evidente que o cronograma de obras, mesmo sob aperto, deverá ser cumprido. Tecnologia, gestores e parceiros, isso é o que não falta para tocar o conjunto. Mas, sob o prisma do rigor técnico - dentro do qual se inserem os projetos executivos, a quantidade e a qualidade de materiais, o controle das etapas, a lupa sobre preços e o superfaturamento, a rígida obediência aos parâmetros socioambientais, a preparação da infraestrutura e, obviamente, a análise sobre uso futuro dos equipamentos -, há um imenso acervo a ser examinado. O que exigiria muito tempo.

Na esteira da pressa, o risco Brasil sobe aos píncaros. Veremos na paisagem um portentoso conjunto de obras, algumas chamando a atenção pela pujança estética, mas, no obscuro limite entre os territórios do público e do privado, vicejarão sementes de improvisação, que produzirão colheitas de irresponsabilidade nas frentes das obras. Essa é a química que explica no nosso ethos traços de negligência, desleixo, displicência, relaxamento, bagunça e vivacidade.

A pergunta emerge naturalmente: ante tão flagrante constatação, por que não se muda o ritual? Por que não se fez um planejamento em prazo adequado? Ora, o Brasil cultiva o gosto pelo instantâneo, pelo provisório. Prefere-se, por aqui, administrar o varejo, e não o atacado. É mais vantajoso apagar incêndios do que preveni-los. Coisas planejadas com muita antecedência parecem não combinar com a alma lúdica brasileira, brincalhona, irreverente. Se não fosse obrigado a enfrentar o batente para sobreviver, o brasileiro adoraria passar o ano inteiro na folia. Oswald de Andrade traduziu, um dia, tal estado de espírito ao versejar: "Quando dá uma vontade louca de trabalhar, eu sento quietinho num canto, e espero a vontade passar". Ademais, como se procurou argumentar, é perceptível uma aliança entre parceiros para deixar para a "última meia hora" o que poderia ser feito "na última hora". Haverá menos fiscalização, menos burocracia, menos senões e mais apoios.

Da parte de cima da pirâmide social, a expectativa é de que o Estado continue a equilibrar o triângulo que lhe dá sustentação: o poder político, a gestão pública e os círculos de negócios. No caso dos eventos esportivos, o triângulo é formado pela Autoridade Olímpica e pelo Comitê Olímpico, que farão a administração; pelo poder político, que ditará as regras do jogo (por exemplo, votação do regime diferenciado de licitações); e pelos negócios, onde estão os parceiros privados dos empreendimentos. E quanto aos "cinco elefantes brancos"(estádios de Brasília, Cuiabá, Manaus, Natal e Recife), que após a Copa poderão gerar grande prejuízo por falta de contingentes necessários para torná-los autossustentáveis? No país que aprecia o status provisório, essa questão será analisada nas calendas. Cada imbróglio no seu devido tempo. Quando aquele momento chegar, os figurantes pegarão carona no jeitinho e arrumarão verbas para dar nova finalidade às edificações, incluída a sua derrubada.

E, assim, o Brasil vai rolando a bola e brandindo o slogan "antes tarde do que nunca". Afinal, fazê-las "antes cedo do que tarde" daria muito na vista. E isso, convenhamos, prejudica a visão (e os negócios) dos parceiros.

JORNALISTA, É PROFESSOR

TITULAR DA USP, CONSULTOR DE POLÍTICA E DE COMUNICAÇÃO TWITTER: @GAUDTORQUATO

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