Apocalipse em Kiev

Depois dos mais sangrentos confrontos na Ucrânia desde a sua independência, em 1991 - a batalha campal da terça-feira em Kiev entre os opositores do presidente Viktor Yanukovich e as falanges da Berkut, a tropa de choque do Ministério do Interior, que deixou pelo menos 25 mortos e mais de duas centenas de feridos de ambos os lados -, a União Europeia (UE) parece ter despertado da catatonia diante da crise no dividido país.

O Estado de S.Paulo

20 Fevereiro 2014 | 02h08

A cúpula do bloco preparava-se ontem para aprovar um pacote de sanções contra o governo pró-russo de Yanukovich, eleito em 2010. Ou, nas palavras do presidente da Comissão Europeia, José Manuel Barroso, "medidas focadas contra aqueles responsáveis pela violência e uso excessivo da força". Valha o que isso valer, se é que não aproximará ainda mais Yanukovich de seu mentor moscovita, Vladimir Putin, era o que os Estados Unidos vinham cobrando dos europeus com crescente exasperação.

A zanga americana tornou-se pública quando vazou que a secretária assistente de Estado, Victoria Nuland, numa conversa telefônica, reagiu com um sonoro "F… a União Europeia" a um comentário do seu interlocutor sobre a indecisão dos líderes do outro lado do Atlântico. No auge da conflagração da terça, que um jornalista ocidental, sem exagerar, equiparou a um apocalipse, o vice-presidente Joseph Biden pediu a Yanukovich que recolhesse as forças de segurança. O pedido, naturalmente, foi ignorado.

Os ferozes embates foram inesperados. Nas últimas semanas, uma trégua tácita parecia ter sido estabelecida na capital. O governo não só deixou transcorrer em paz a mais recente manifestação na Praça da Independência, como anulou uma recente lei repressiva e ainda libertou todos os 234 ativistas detidos. Com isso, o movimento desocupou as repartições públicas invadidas.

O problema é que, na raiz, nada mudou - nem a corrupção entranhada no pacto político entre o governo e os oligarcas multibilionários, nem a propensão do presidente para o autoritarismo, nem a sua dependência de Putin. Foi o que o levou, em novembro, a desistir de um acordo de cooperação comercial entre a Ucrânia e a UE, que poderia desembocar, futuramente, na sua integração ao bloco. A Alemanha tem alentados planos de investimento no país. Yanukovich preferiu um empréstimo de US$ 15 bilhões oferecido pela Rússia.

Vieram os protestos e multiplicaram-se os acampamentos na Independência. Pelos padrões do país e em comparação com o que viria a acontecer na terça-feira, a resposta policial não se degradou em barbárie. Yanukovich até prometeu que não recorreria à força para dispersar os manifestantes. Mas isso foi antes de seu encontro com Putin na abertura dos Jogos Olímpicos de Sochi. O ucraniano voltou do Cáucaso chamando os opositores de "terroristas" e pronto para arrebentar o que o Kremlin considera "tentativa de golpe de Estado".

Os ativistas, de seu lado, insistiam na renúncia do presidente, ou ao menos numa mudança constitucional que limitasse os seus poderes. No dia fatídico, quando o projeto seria votado - o que não chegou a acontecer -, saíram em marcha rumo ao Parlamento. Bloqueados, incendiaram os caminhões da polícia com coquetéis molotov. Foi a faísca que levou o governo a mobilizar a Berkut para retomar a Praça. Os opositores adotaram a tática da terra arrasada, formando um círculo de fogo ao redor das tendas ainda em pé. Depois, usaram-nas para alimentar as chamas - que crepitavam ao longo do dia de ontem.

Alheio às presumíveis sanções da UE, Yanukovich subiu o tom dos ataques aos ativistas, antecipando que serão julgados sem complacência. Reafirmando o seu apoio ao presidente, o governo russo os comparou aos camisas pardas nazistas ao tempo da ascensão de Hitler, em 1933. Para Moscou, a ex-república soviética de 46 milhões de habitantes - parcela significativa dos quais voltados para o Leste - é peça-chave no seu tabuleiro geopolítico. Os interesses ocidentais na Ucrânia são robustos, mas não vitais como os da Rússia. É no que se sustenta Yanukovich.

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