Apoio dispensável

Nunca antes na história deste país, como diria o presidente Lula, a indústria automobilística brasileira produziu e vendeu tanto como em 2007. Os negócios vão tão bem que algumas montadoras foram forçadas a criar turnos extras e reduzir os horários de refeição de seus trabalhadores para atender à demanda inesperada - em certos casos, o consumidor tem de ficar na fila até três meses para receber o modelo desejado.O resultado econômico-financeiro para as montadoras não poderia ser diferente do que elas vêm exibindo desde o ano passado. Depois de anos de prejuízos, as quatro maiores fabricantes de automóveis instaladas no Brasil estão apresentando lucros expressivos ou, no mínimo, conseguem equilibrar suas contas.É no Brasil que duas gigantes mundiais em dificuldades nos principais mercados obtêm resultados que lhes permitem contabilizar algum lucro ou reduzir seus prejuízos globais. Outras empresas, com presença destacada no mercado mundial, mas desempenho modesto no Brasil, planejam aqui investir para alcançar resultados que não obtêm lá fora.Símbolo de uma das fases mais impressionantes do desenvolvimento industrial em todo o mundo, com forte influência sobre dezenas de outros segmentos da economia e detentora de enorme poder de mercado em escala global, a indústria automobilística exerce seu poderio de maneira implacável para obter bons resultados para seus acionistas. Quando toma as decisões acertadas - e tem acertado muito mais do que errado -, se apropria dos resultados. Quando não os consegue, é por erros estratégicos, de gestão ou de outra natureza, mas de sua inteira responsabilidade, e arca com as perdas.Não há nenhuma razão que justifique a interferência de governos no processo de tomada de decisões estratégicas por parte desse gigante mundial. É por isso que não se entende a disposição do ministro do Desenvolvimento, Miguel Jorge, anunciada pelo jornal Valor, de preparar um conjunto de medidas - entre as quais facilidades para obtenção de financiamentos junto ao BNDES - para praticamente duplicar a produção da indústria automobilística brasileira até 2010.É claro que, quanto mais a indústria produzir, melhor para o País. Mas se, estimuladas pelas vendas dos últimos meses e pelas perspectivas que elas vislumbram para o futuro próximo, as montadoras estão interessadas em expandir sua capacidade de produção no Brasil, podem muito bem fazê-lo com seus próprios recursos. Elas não precisam de incentivos. Basta ver a decisão da General Motors, anunciada por seu presidente mundial, Rick Wagoner, de investir US$ 500 milhões no Brasil e na Argentina numa nova família de carros compactos.Desde sua instalação, na década de 1950, a indústria automobilística brasileira tem merecido das autoridades uma atenção que outros segmentos industriais não conseguem. Em períodos mais recentes, a pressão sindical, exercida sobretudo pelo então dirigente sindical Luiz Inácio Lula da Silva e seus companheiros de São Bernardo do Campo, levou a acordos que resultaram em grandes benefícios para os trabalhadores, para as montadoras e para o governo - aumentos generosos de salários e garantia de emprego, compensados por aumentos igualmente generosos do preço do produto e, em conseqüência, arrecadação maior - e perdas para os consumidores e contribuintes.Na segunda metade da década de 1990, benefícios tributários concedidos em excesso por governos estaduais estimularam a onda de investimentos das montadoras no País, o que resultou numa capacidade excessiva de produção, da qual só agora a indústria automobilística está se livrando. Ela tem capacidade para produzir 3,5 milhões de unidades por ano, mas em 2007 sua produção deve ficar em 2,8 milhões, um recorde histórico.Por que utilizar recursos de um banco público como o BNDES para estimular investimentos num segmento que ainda tem capacidade ociosa significativa e, se precisar investir, seguramente dispõe de recursos para isso? Se a intenção do governo é estimular a indústria e gerar empregos, com certeza há setores muito mais carentes do apoio oficial e mais empregadores do que o automobilístico.

O Estadao de S.Paulo

21 de julho de 2007 | 00h00

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