Após o furacão

Às vezes, encontrar um amigo num evento público ou um brasileiro no exterior dá a sensação de alívio. É o conhecido no meio do incerto. Os investidores têm tido esse comportamento. Nas últimas semanas, o alívio tem dominado o pânico nos mercados financeiros. Após meses caminhando para um futuro desconhecido e provavelmente diferente do passado, os investidores estão-se deparando com uma incipiente recuperação que tem características surpreendentemente conhecidas. O consumo americano voltou a crescer, o investimento na China tem sustentado uma recuperação inicial na Ásia e a alavancagem financeira está de volta a Wall Street, nos programas do governo americano. A recuperação baseada nos vícios do passado anima o presente.Nas últimas semanas, a possibilidade de um cenário de queda livre da atividade mundial foi gradativamente sendo afastada. Após uma queda brusca no último trimestre do ano passado e a continuidade das perdas nos primeiros meses deste ano, há sinais recentes de melhora. Para alguns, é o começo da recuperação da economia global; para outros, é apenas o fim da piora. De qualquer forma, ambas as visões animam os mercados, já que retiram o "bode da sala", isto é, o cenário de continuidade de queda livre tanto das economias quanto dos preços dos ativos.Para a frente há várias possibilidades. Os mais céticos duvidam desse ânimo recente nos mercados financeiros. Acreditam que o pior ainda está por vir, haverá mais queda pela frente. Nessa visão, ainda não chegamos ao fundo do poço, a melhora recente é apenas um "bear market rally", uma subida nos mercados no meio de uma tendência de queda. O racional, para essa visão, é claro. Os problemas encontrados no sistema financeiro mundial e, consequentemente, na economia global são sérios e não há solução clara à vista. O montante das perdas é maior do que o tamanho da soma dos pacotes de incentivo dos governos.Os mais otimistas se animam com os dados recentes e com a subida dos mercados. Não só o pior já passou, mas o futuro é animador. Projetam uma recuperação sólida, que mantém ou intensifica seu ritmo. Baseiam sua análise na força dos estímulos fiscais dos governos (pacotes), mas também nos estímulos monetários (juros a taxa zero ou muito baixos no mundo). Além disso, animam-se com a força de recuperação da economia da China e o que isso significa para o restante da Ásia e, portanto, para o mundo.Uma visão intermediária é que, de fato, o pior já passou, mas a recuperação será lenta (e volátil - pode haver momentos tanto de queda quanto de subidas). A recuperação não será forte (em formato de V ou U). Os mercados estão certos em subir, já que houve um alívio, mas terão exagerado se estiverem embutindo um otimismo forte com o crescimento no futuro.A razão para essa visão desalentadora é que a economia global precisa de um ajuste relevante, o que pode limitar a capacidade de crescimento no futuro. A crise global é mais do que o seu braço financeiro: envolve o lado real da economia, por meio da reestimação da riqueza global. Hoje está claro que havia uma riqueza inflada pela valorização enganosa do mercado imobiliário, das bolsas no mundo e dos ativos em geral. O problema é que o consumo era baseado nessa riqueza inflada. Muito do que era produzido no mundo se direcionava a satisfazer esse consumo, também inflado. E, provavelmente, houve excesso de investimentos para ampliar a capacidade de produção a fim de satisfazer o consumo exagerado baseado nessa riqueza inflada. A economia mundial precisa de um ajuste, no qual o consumo e o investimento cresçam a taxas menores antes que possam voltar ao vigor anterior.O interessante nesse ânimo recente dos mercados é que ele se baseia, muitas vezes, na recuperação em áreas que precisam diminuir. Há um consenso de que o crescimento do consumo americano era insustentável e deveria retrair-se. E que deveria ser substituído pelo consumo em outros países do mundo, como na China, que poupa demais e investe exageradamente. Há também um consenso de que o sistema financeiro mundial - baseado em excesso de alavancagem e garantias (implícitas) de governo - inchou demais.Mas o ajuste necessário parece que tomou um descanso. Apesar da perda de riqueza, falta de crédito e alta do desemprego, o consumo americano voltou a crescer já no primeiro trimestre deste ano (contribuição de 1,5% para o crescimento) e projeta-se que continue nessa trajetória no resto do ano, em parte sustentado pelo estímulo proveniente do pacote fiscal. O investimento tem sido um componente fundamental para a recuperação da economia chinesa, voltando a crescer quase 40% ao ano. Finalmente, o pacote de estímulo governamental à compra de ativos por parte dos investidores baseia-se na volta da alavancagem, cujas possíveis perdas estão garantidas pelo governo - seja o Tesouro americano, o Federal Reserve (Fed) ou a Federal Deposit Insurance Corporation (FDIC). O objetivo é sustentar os preços dos ativos tóxicos para ajudar a recuperação. O ânimo vem da volta da alavancagem, com garantia do dinheiro alheio.Em suma, para alguns, é o começo do fim da recessão; para outros, é o fim de um começo difícil em direção a um período novo pela frente. De qualquer forma, há um ânimo com a menor possibilidade de um cenário de queda livre. O interessante é que esse ânimo está baseado, em parte, na volta aos vícios do passado - consumo americano mais forte, investimento chinês exagerado e a volta da alavancagem com garantias governamentais. Mas o ajuste ainda virá, talvez num ritmo mais lento e menos doloroso do que vivenciamos recentemente. Ilan Goldfajn é economista-chefe do Itaú UnibancoExcepcionalmente, o artigo de Xico Graziano será publicado amanhã.

Ilan Goldfajn, O Estadao de S.Paulo

05 de maio de 2009 | 00h00

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