Aposentadoria? Pense também na longevidade

Riscos do aumento da expectativa de vida são muitos, e cabe prevenir e se proteger deles

*Roberto Macedo, O Estado de S.Paulo

03 Agosto 2017 | 03h11

Muita gente já se aposentou ou pensa muito em chegar à aposentadoria. Modernamente uma pessoa deve pensá-la no contexto de algo mais amplo, a longevidade. Por quê? Longevidade diz respeito à expectativa de vida das pessoas, a qual crescentemente vai além da idade em que normalmente vem a aposentadoria. Que pode ser apenas a primeira, pois há quem continue a trabalhar após adquiri-la, eventualmente obtendo outra ou mais.

A longevidade se espelha na maior expectativa de vida, medida pelo número adicional de anos que, em média, as pessoas de determinada idade podem esperar viver. Os anos adicionais que de fato virão varia em torno dessa média. Eles vêm se ampliando mundialmente e isso leva à necessidade de refletir mais sobre a longevidade, inclusive seus riscos.

Fala-se muito da terceira idade, que no Brasil começa aos 60 anos, mas hoje já há referências também à quarta idade, a partir dos 80. Paralelamente à maior expectativa de vida, nossa taxa de natalidade caiu muito – e continua a cair. O resultado inexorável é que a população envelhece rapidamente. Em 2010, o grupo de 60 anos ou mais era 20% da população total. Prevê-se que será 29,3% em 2020, 41,5% em 2030, tornando-se majoritário, com 54,2%, perto de 2040, que já não está muito distante.

O IBGE faz anualmente um levantamento da expectativa de vida de uma pessoa ao nascer, e de ano a ano de idade até a faixa dos 80 anos ou mais, para homens e mulheres, que em geral vivem mais que os homens. Se o leitor quiser saber a própria, os últimos dados publicados foram os de 2015, e estão em ibge.gov.br na conexão “População” e, dentro dela, na que leva às “Tábuas Completas de Mortalidade”.

Usando também dados de 1991, verifiquei que para um homem que então tivesse 30 anos a expectativa era a de viver mais 38,5, e de chegar assim aos 68,5; se sobrevivesse até 2015 teria então 54 anos, e a expectativa de vida seria de mais 24,7 anos, ou de chegar aos 78,7. Ou seja, sua expectativa aumentou 10,2 (!) anos num período de 24.

Esse aumento deve continuar. Vem, entre outros aspectos, da melhoria de condições de vida das famílias e dos domicílios, abrangendo rendimentos, alimentação, cuidados pessoais e saneamento básico, bem como tratamentos médicos mais eficazes, decorrentes do progresso científico e tecnológico no enfrentamento de enfermidades.

Dados levantados pelo economista Paulo Tafner mostram que, em média, no Brasil os homens se aposentam por idade aos 63 anos e por tempo de contribuição aos 55. Para as mulheres, os números são 59 e 52 anos, respectivamente. Unificando aproximadamente esses números para médias de 60, no caso dos homens, e 55, no das mulheres, nessas idades suas expectativas de vida em 2015 eram de 20,2 e 28,8 anos, levando a 80,2 e 83,8 anos, respectivamente.

Pode-se falar de flores na longevidade e contar com elas pelo menos ao seu final. Mas há vários riscos ou espinhos a que as pessoas estão sujeitas nessa fase da vida. Análise de risco é ocupação típica de atuários, e estudo da Sociedade dos Atuários, dos EUA, apontou 15 desses riscos. Entre eles estão os que afetam rendimentos, como a própria longevidade, se for além dos recursos disponíveis; a inflação, se os rendimentos não forem corrigidos pelo efeito total dela; e a descontinuidade do negócio ou outras dificuldades de empresa que ofereça um plano de aposentadoria, como aconteceu no Brasil no caso da Varig. Há também riscos associados a condições de vida e residência, como custos de assistência médica não previstos e ausência de acomodações e de cuidadores(as). Entre riscos de outros tipos estão a morte do cônjuge, se for o que cuidava de sobrevivente incapacitado, e suas sequelas, inclusive problemas financeiros sérios, se o sobrevivente não tiver condições de cuidar das finanças da família. E maus conselhos, fraudes e roubos.

Acrescento o risco ligado à redução do número de filhos por família. Antigamente, elas tinham muitos filhos, dos quais se esperava ajuda financeira e cuidados pessoais na velhice dos pais. Aliás, lembro-me de uma senhora que na minha infância dizia que filhos eram dinheiro a juros, e “aplicou” tendo muitos. Esse maior número era também uma forma de diversificar essa “carteira de investimentos”, um procedimento usual de reduzir seus riscos. Hoje, tal “carteira”, mesmo se ainda pensada, teria tamanho muito reduzido, ampliando o risco de filhos que poderiam não dar retorno se esperado, se quando adultos se revelassem sem recursos ou aéticos no provimento de ajuda aos pais.

Ou seja, a lista de riscos é bem ampla e exige reflexão tanto para a prevenção como para a proteção contra a materialização deles. Nesse contexto, a visão da longevidade também leva à discussão do que fazer nos anos de vida adicionais, muitos dos quais podem ser vividos em boas condições de saúde, se esta foi e for bem cuidada e a herança genética ajudar. A respeito, ampla e interessante análise veio do jornalista econômico americano Chris Farrell. No seu livro Unretirement (tradução: Não à aposentadoria), após pesquisar identificou um movimento contrário à tradição, típica do seu país, de os aposentados focarem muito em atividades de lazer.

Esse movimento é marcado por três opções que reduzem riscos da longevidade. A primeira é não parar de trabalhar, ou a desaposentação, seja na mesma carreira ou noutra. A segunda, uma variante da primeira, é usar a experiência adquirida para iniciar uma atividade empresarial ou se associar a uma já em andamento. A terceira, o trabalho voluntário.

Optei mais pela primeira, tanto por convicção própria como por pesquisas demonstrando que o trabalho não extenuante faz bem à saúde física e mental. Não me arrependi, e as outras duas opções são também recomendáveis.

*É economista (UFMG, USP e Harvard), consultor econômico e de ensino superior 

 

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