Aprender e educar num mundo digital

Como preparar os jovens para atuarem na nova configuração tecnológica global?

*MARCO A. ZAGO E VAHAN AGOPYAN, O Estado de S.Paulo

30 Março 2018 | 03h00

O maior desafio das universidades hoje é educar as novas gerações para as incertezas: antecipar o futuro, e não apenas relatar o passado, para garantir que graduados terão capacidade de resposta e adaptação às mudanças globais que caracterizam nosso tempo. Temos de formar jovens para viverem e trabalharem num mundo que não podemos antever com clareza, onde muitas das profissões que conhecemos terão perdido seu papel e as tecnologias disponíveis serão muito diferentes das atuais. Como preparar os jovens para esse futuro?

Acreditamos que o caminho passe por mudanças profundas no ensino e no aprendizado. Esse tema estará em debate no 4.º Encontro Internacional de Reitores Universia, em maio, na octocentenária Universidade de Salamanca, na Espanha. Com comitiva de uma centena de reitores brasileiros, entre outros tantos de todo o mundo, será uma oportunidade única para juntos fortalecermos a integração de nossas universidades à revolução digital.

De nossa parte, propomos fugir das especificidades curriculares, dos detalhes exaustivos, e dar mais peso a pensar sobre o futuro do que à tentativa de transmitir às novas gerações tudo o que foi acumulado no passado.

Educação implica mudança de comportamento, fortalecimento da independência de pensamento e da capacidade de argumentação, de comunicação e de tomada de decisões. Um currículo que pretenda educar para o futuro, num mundo que não podemos ainda desvendar, deve privilegiar o respeito aos direitos de todos, a capacidade de trabalhar em grupos multidisciplinares, de liderar e de aceitar a liderança de outrem, a referência permanente aos valores éticos e o respeito à vida e ao ambiente.

Nesse currículo ideal, o método e a abordagem têm primazia sobre o conteúdo, pois são os instrumentos comportamentais que asseguram o sucesso em qualquer situação. As universidades precisam oferecer ambientes de ensino em que os estudantes se preparem para a contínua atualização tecnológica.

A revolução digital é uma mudança irreversível do mundo, que afeta a vida de todos, e chega ao entorno das universidades, embora ainda não tenha sido adequadamente absorvida por elas. É surpreendente que toda a comunidade acadêmica (professores, estudantes e técnicos), que gera e participa da revolução tecnológica e digital no dia a dia, no uso intensivo de smartphones, tablets, plataformas digitais, internet, streaming e televisão digital, por exemplo, continue ao mesmo tempo resistindo a incorporar essas mudanças na vida acadêmica. 

Não é exagero descrever o ambiente universitário como composto por estudantes da era digital e professores analógicos (no que diz respeito ao ensino-aprendizagem). Esse ambiente terá de mudar e as universidades que resistirem se tornarão obsoletas. A tecnologia com sentido estratégico serve como ferramenta para definir linhas de atuação internas (metodologia e didática de aprendizagem, recursos humanos, planejamento e gestão) e externas (alianças com empresas e órgãos de governo, trabalhos em rede, consórcios tecnológicos, criação de clusters produtivos). A conectividade contínua está levando a uma reconfiguração das relações sociais, em todos os níveis, e a educação faz parte desse pacote.

Para que a revolução digital chegue às universidades brasileiras é necessário, primeiramente, investimento em infraestrutura. Não é possível sequer planejar ensino em ambiente em que o esudante não tenha acesso a máquinas, não disponha de conectividade de elevada qualidade ou não encontre técnicos competentes para manterem a qualidade do acesso digital e assegurarem o uso adequado das ferramentas técnicas.

A forma de transmitir o conteúdo nesse novo ambiente digital tem de ser muito diferente da transmissão de conteúdo em sala de aula. A utilização ingênua do formato clássico apenas transposto para formato digital não funciona: por exemplo, gravar aulas clássicas de 50 minutos. Dentro de cada tópico é necessário escolher os aspectos que sejam mais apropriados à abordagem digital e dar-lhe formato adequado. 

No entanto, a capacitação docente específica continuará sendo o maior entrave ao ensino no ambiente digital. Não se trata apenas de “adaptar” o formato clássico para o formato digital, mas de escolher o conteúdo que permita “conversar” com os jovens, e não apenas “falar” para os jovens, que não aderem a uma plataforma digital quando seu papel é apenas passivo, como, por exemplo, somente ler longos textos.

A liderança e a governança das universidades são fortemente afetadas pelo formato do ensino. A mudança do ensino tradicional para o ambiente digital produzirá impactos na distribuição de poder e na condução da vida acadêmica, a começar pela organização do currículo, dos módulos didáticos, e pela maior necessidade de integração e de flexibilidade curricular.

Mais significativas serão as alterações no uso do espaço físico, que já começaram nas bibliotecas, as quais estão deixando de ser depósitos de livros e periódicos para se transformarem em espaços para trabalhos colaborativos, em rede, e uso massivo de recursos digitais. Aqui tocamos numa das áreas mais sensíveis e cuja mudança trará maior impacto na vida da universidade: o domínio de docentes e departamentos sobre os pequenos espaços e divisões se tornará obsoleto com o trabalho em rede.

Os benefícios da revolução digital sobre a burocracia e a administração serão imensos, trazendo economia de tempo e de pessoal, eficiência e rapidez nos processos e eliminação de redundâncias. Ganham as instituições de ensino, mas também a sociedade, que será servida por profissionais preparados para a nova configuração tecnológica global.

*RESPECTIVAMENTE, EX-REITOR (2014-2017) E COORDENADOR DO CENTRO DE INOVAÇÃO DA USP;  E ATUAL REITOR DA USP

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