Ar-condicionado nos ônibus

A Prefeitura de São Paulo anunciou que tornará obrigatória a instalação de ar-condicionado nos ônibus da capital a partir da próxima licitação do serviço, que pode ocorrer ainda neste semestre. Trata-se de uma medida importante para oferecer um pouco mais de conforto a passageiros que enfrentam temperaturas extremas dentro dos ônibus sempre que faz um pouco mais de calor na cidade. Como se trata de promessa antiga, no entanto, é preciso esperar para ver se, desta vez, o usuário do transporte coletivo não será mais uma vez iludido.

O Estado de S.Paulo

24 Janeiro 2015 | 02h05

Reportagem do Estado constatou que um ônibus sem ar-condicionado pode ter a temperatura interna até 12 graus mais alta do que nos veículos com o equipamento. Na medição feita quando os termômetros da cidade marcaram a máxima de 36,7 graus, os passageiros do ônibus comum enfrentaram um calor de 38,8 graus, entre as 14 e as 15 horas. Já o ônibus com ar-condicionado registrou 26,6 graus.

Os dados da SPTrans mostram que há apenas 60 ônibus refrigerados hoje em circulação na cidade, que tem uma frota de 14,8 mil veículos. Esses ônibus - de um modelo superarticulado de 23 metros de comprimento que trafega por corredores - fazem parte de um teste da Prefeitura para avaliar a reação dos passageiros.

A administração municipal considera que a resposta tem sido positiva e informou que o número passará para 110 neste semestre e para cerca de mil até o fim do ano. Não foi divulgado prazo para que toda a frota seja equipada, mas os novos ônibus que entrarão em circulação mesmo antes da licitação já deverão vir com ar-condicionado, segundo a Prefeitura.

A primeira tentativa de modernizar os ônibus com ar-condicionado data da gestão de Marta Suplicy, entre 2001 e 2004. No entanto, seu sucessor, Gilberto Kassab, decidiu proibir o equipamento em julho de 2007, sob o argumento de que os passageiros reclamavam do frio e que o ar-condicionado pode propagar doenças dentro dos ônibus. Desde então, os poucos ônibus refrigerados remanescentes da gestão Marta passaram a circular com o equipamento desligado.

Em 2009, a SPTrans liberou os consórcios permissionários do transporte coletivo de equipar os ônibus com ar-condicionado em razão de uma pesquisa que indicava rejeição de 86% dos passageiros à refrigeração. A pesquisa, no entanto, baseou-se em apenas 300 entrevistas, em um universo de 3 milhões de usuários, e perguntava ao passageiro se ele preferia "temperatura ambiente" à "temperatura fria". A maioria, obviamente, rejeitou o frio, desconsiderando que temperatura "ambiente" pode significar um calor de quase 40 graus.

Ademais, houve também muitas reclamações na época em relação ao frio considerado excessivo dentro dos ônibus refrigerados, o que sugere não um problema em relação ao ar-condicionado em si, mas a sua correta regulagem. Esse fator certamente terá de ser levado em conta quando o equipamento se tornar obrigatório.

Hoje, a Prefeitura alega que não é mais possível considerar o resultado daquela enquete, porque os testes feitos pela atual gestão indicam boa aceitação do ar-condicionado. Houve um aumento de 20% na demanda dos ônibus refrigerados que circulam desde setembro - segundo a SPTrans, os passageiros preferem esperar no ponto até que passe o veículo equipado.

A aposta da Prefeitura é que o conforto oferecido por ônibus climatizados seja decisivo para que os paulistanos que hoje preferem o carro optem pelo transporte coletivo. Se sair do papel, a exigência de modernização será certamente bem-vinda. No entanto, para que os ônibus se tornem de fato uma opção viável para substituir os carros, é necessário muito mais do que a promessa de que os veículos deixarão de ser saunas sobre rodas. É preciso uma reformulação completa do sistema, para corrigir suas inúmeras distorções - sempre a favor das empresas de transporte, diga-se - e racionalizá-lo de tal modo que ninguém precise mais passar horas em um ônibus superlotado, por mais agradável que seja a temperatura dentro dele.

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