Argentina retém pagamentos

São cada vez piores as relações comerciais entre o Brasil e a Argentina, mas esse fato óbvio para os exportadores não parece ser do conhecimento do Palácio do Planalto. O tratamento especial dispensado pelo governo do PT à Argentina já resultou em perda de mercado e agora causa danos financeiros aos exportadores brasileiros.

O Estado de S.Paulo

26 Setembro 2014 | 02h06

Uma nova fonte de tensão surgiu com a decisão do governo argentino de reter os pagamentos devidos aos exportadores brasileiros, como mostrou o Estado (23/9). A administração da presidente Cristina Kirchner já havia feito isso há seis meses e, com maiores dificuldades em diferentes áreas - projeções apontam para a redução do PIB em 2014, a inflação medida por instituições privadas deve alcançar 40%, as reservas cambiais encolhem rapidamente -, parece pouco provável que não o faça outras vezes.

O Brasil paga o preço da escolha feita pela administração petista, que, em nome de uma política externa e comercial baseada em afinidades ideológicas e não nos interesses de longo prazo do País, transformou a Argentina, governada pelos Kirchners desde 2003, em parceira preferencial. Medidas de restrição impostas pelo governo Kirchner à entrada de produtos brasileiros no mercado argentino foram toleradas pelo governo do PT. Em várias ocasiões, o governo brasileiro alegou desconhecer as medidas prejudiciais às exportações brasileiras. Agora, a presidente Dilma Rousseff disse nada saber sobre o atraso dos pagamentos.

O cerco do governo argentino aos produtos brasileiros é a consequência do fracasso de suas próprias políticas, que prejudicaram a produção e, assim, criaram obstáculos ao crescimento, afugentaram capitais externos, geraram escassez no mercado doméstico, aumentaram a pobreza e alimentaram a inflação.

Os principais indicadores pioraram à medida que essas políticas foram intensificadas. As reservas internacionais despencaram de US$ 52 bilhões em 2011 para os atuais US$ 28 bilhões (redução de 46% em menos de três anos). Para um país que, desde o calote da dívida externa em 2001, enfrenta sérios obstáculos para obter dólares, as dificuldades jurídicas que enfrenta em Nova York para o acerto com um grupo de credores, que não aceitaram as condições impostas aos demais, tornaram o quadro pior. A explosão da cotação do dólar no mercado livre é o sinal mais evidente da deterioração da situação econômica.

Carente de dólares, o governo tenta controlar o mercado de câmbio e, agora, como se queixam os exportadores brasileiros, não lhes repassa o valor já quitado pelos importadores, para evitar a saída de moeda estrangeira do país e a consequente redução das reservas. É mais um problema que se soma aos que já enfrentam os exportadores, como os controles administrativos que retardam ou impedem a entrada de produtos brasileiros.

Em crise, a Argentina importa menos. Mas o corte das importações afeta mais duramente as compras de bens produzidos no Brasil. O tratamento privilegiado concedido à Argentina pelo governo petista não tem a contrapartida do governo Kirchner, que busca as importações que mais lhe sejam proveitosas. Assim, enquanto diminuem rapidamente as compras do Brasil (em 2014, as exportações brasileiras para a Argentina nos oito primeiros meses foram 24,5% menores do que as de 2013), crescem as importações de produtos chineses (aumento de 2% no primeiro semestre) e dos países do Nafta (alta de 9%). Em resumo, além de comprar cada vez menos do Brasil, a Argentina agora decidiu pagar uma fatia menor da compra.

É cada vez menor a oferta de bens para o consumidor argentino. Mas também seu poder aquisitivo é cada vez menor. Estudo do Banco Mundial mostra que 33% dos argentinos vivem em uma situação "vulnerável", pois a renda por pessoa dessa parcela da população varia de US$ 4 a US$ 10 por dia. O governo Kirchner, é claro, contesta esses dados. Nas suas contas, nunca a pobreza foi tão baixa na história do país, pois somente 4,7% da população estaria nessa faixa.

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Editorial Estadão Argentina

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