Armazenagem, o elo perdido do agronegócio

Comprovadamente competitivo, líder mundial na produção de várias commodities e com um aumento de 60 milhões de toneladas nos últimos dez anos, o agronegócio brasileiro passa a enfrentar sérios problemas a partir da colheita, principalmente de soja e milho, por falta, entre outras coisas, de infraestrutura de armazéns, que não acompanhou a evolução da produção. Nada menos que R$ 20 bilhões são perdidos por ano por causa desse grave problema, que se arrasta há mais de 30 anos.

Renato Casali Pavan*, O Estado de S.Paulo

04 Novembro 2013 | 02h15

Nessa questão, há uma falsa avaliação do déficit do sistema de armazenagem quando o cálculo é feito pela diferença entre a produção e a capacidade instalada de armazéns. Como o Brasil produz 180 milhões de toneladas de grãos e a capacidade de armazenagem é de 140 milhões de toneladas, o resultado apontado por vários especialistas é de 40 milhões de toneladas. Mas isso está errado, o déficit é muito maior, pois a armazenagem é dividida em níveis.

Os produtores dos Estados Unidos, nossos maiores concorrentes e considerados referência em eficiência, armazenam em suas fazendas uma safra e meia, segundo estudo da Fundação Getúlio Vargas (FGV). O produtor brasileiro armazena somente 15%, cerca de 30 milhões de toneladas, com um déficit de 150 milhões de toneladas para uma safra. A deficiência de armazenagem provoca enormes perdas, as quais ocorrem ao longo da cadeia produtiva.

A primeira perda se dá na colheita. A recomendação da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) é que o grão seja colhido com umidade entre 15% e 18%. Nesse caso há necessidade de secar e armazenar na propriedade. Quando não há armazém, o grão é colhido mais seco para retardar o processo de fermentação, ocasionando uma perda de 5%.

A segunda perda ocorre após a colheita. Uma vez colhido, o produto é transportado por caminhão para a cooperativa ou para os armazéns coletores. O aumento na demanda encarece o frete, além do que o caminhão enfrenta uma enorme fila para levar o produto para ser limpo e seco. Como ele está úmido, fermenta, perde qualidade e, consequentemente, o preço pode cair até 5%.

A perda anual de 10% entre a colheita e o armazém coletor representa R$ 12,6 bilhões, que, somados aos R$ 8 bilhões estimados pela Associação Nacional dos Exportadores de Cereais (Anec), implica uma perda total no ano da ordem de R$ 20 bilhões, diminuindo a renda do produtor.

A terceira perda é na exportação. Por falta de armazenagem na propriedade, todos querem levar os seus produtos para o porto ao mesmo tempo, congestionando as rodovias e ferrovias. De acordo com a Anec, por causa do congestionamento há mais um prejuízo de R$ 8 bilhões por ano. O Brasil movimenta pelos portos cerca de 32 milhões de toneladas de soja e 15 milhões de toneladas de milho, ou seja, 47 milhões de toneladas/ano. A necessidade é de 2,5 milhões de toneladas estáticas.

Como se nota, o grande gargalo de armazenagem se encontra na propriedade, o que provoca deficiência em cadeia e torna inviável a movimentação racional da safra. Com o programa de financiamento de armazéns nas propriedades rurais, recentemente anunciado pelo governo federal, será possível ao produtor recuperar o elo perdido na área de armazenagem, pois terá, finalmente, condições de acesso a linhas de crédito que lhe permitam fazer os investimentos elevados necessários à construção de silos. O custo médio de um armazém é de R$ 400 por tonelada, o que exige um investimento de R$ 60 bilhões em 12 anos.

O Banco do Brasil e o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) puseram à disposição cerca de R$ 5 bilhões ao ano para financiar armazéns na propriedade rural, com 15 anos para pagar, três anos de carência e juros de 3,5% ao ano, com custo total de R$ 35 por tonelada/ano. Considerando que o preço médio dos grãos é de R$ 700 a tonelada na região de produção, o produtor terá um ganho de 10%, ou R$ 70 por tonelada. Além de pagar o financiamento, ainda tem uma receita adicional de R$ 35 por tonelada.

Essa notícia ganha ainda mais importância com a decisão da Caixa Econômica Federal de aderir ao esforço de financiamento para o armazenamento. O que está faltando é maior divulgação do programa, para que os produtores possam interessar-se e começar a desengavetar os seus projetos. Aqui há ainda um adicional positivo, que é recuperar o poder produtivo das indústrias de silos, gerando mais empregos e aquecendo um importante segmento da economia.

Paralelamente ao anúncio de investimentos na melhoria das condições de armazenagem, há também boas perspectivas em relação à malha ferroviária e rodoviária. No caso das estradas, está previsto para 2014 o tráfego na Rodovia BR-163 (entre Mato Grosso e Pará), com transbordo em Miritituba (Rio Tapajós, PA) para barcaças, com destino a Vila do Conde e Santarém, que movimentará inicialmente 10 milhões de toneladas por ano. Também no ano que vem entrará em operação no Porto de Itaqui, no Maranhão, o Terminal Tegram, com capacidade para movimentar cerca de 5 milhões de toneladas por ano. Com a ativação desses terminais haverá uma diminuição da pressão sobre os portos do Sul e do Sudeste.

De toda maneira, torna-se necessária a união de forças e uma forte divulgação, que motive principalmente os produtores a se tornarem independentes quanto à armazenagem dos seus produtos e aumentarem a sua renda. A Associação Brasileira do Agronegócio (Abag) e a Associação dos Produtores de Soja e Milho de Mato Grosso (Aprosoja) estão engajadas nesse projeto. Com certeza, a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), a Confederação Nacional da Indústria (CNI) e suas federações também darão uma enorme contribuição nesse sentido.

*Renato Casali Pavan é engenheiro e presidente da Macrologística.

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