As assombrações da Petrobrás

Há um senador, atual, mais conhecido como o "senador de todos", que é um político e um técnico experimentado. Sua especialidade é engenharia elétrica. Mas a sorte só começou a sorrir-lhe - reza o ditado que os que não a têm morrem pagãos - quando Lula chegou à Presidência da República. Ele, então, logrou indicar para diretor da BR Distribuidora o pivô do presente escândalo da Petrobrás, o qual permaneceu na empresa até meados de março, quando estourou a hecatombe. Habituado a ser cortejado por todos, esse ex-diretor da BR, de repente, se viu só.

João Mellão Neto*, O Estado de S.Paulo

04 Abril 2014 | 02h08

O senador que o apadrinhava negou anteontem ter tido qualquer responsabilidade na indicação do acusado e até o presidente do Senado se apressou a seguir-lhe os passos. Enquanto o presidente do Senado troca acusações com o senador do povo sobre quem fez a tal indicação, o distinto público fica na dúvida sobre quem está com a razão: se ambos, um deles ou nenhum.

O cidadão ex-diretor da BR, homem de múltiplos padrinhos, de repente se viu órfão e, ainda por cima, desempregado. O máximo que a presidente Dilma Rousseff fez foi redigir um lacônico desagravo a ele, perdido em algum pé de página. Já o primeiro senador citado tem procurado de todas as maneiras possíveis se desvencilhar do suposto apadrinhamento de seu pupilo. Remando em sentido contrário, encontra-se o líder do partido no Senado. Ambas as cabeças estão a prêmio. Perderá a corrida aquele que for menos convincente.

Todo mundo tem ciência do que aconteceu. Mas não custa relembrar os fatos.

Albert Frère é um empresário belga que está acostumado a ganhar dinheiro e odeia perdê-lo. Entre outros negócios, era o proprietário da refinaria de Pasadena, no Texas, cujos primeiros 50% vendidos à Petrobrás foram avaliados por ele mesmo em US$ 360 milhões. Na verdade, o valor de mercado do total da usina não ultrapassava os US$ 42 milhões, uma vez que seus equipamentos já estavam sucateados e pouco restava de útil no local. De qualquer forma, a Petrobrás acabou se desentendendo com os belgas e foi obrigada a pagar na Justiça US$ 1,18 bilhão à ex-sócia para ficar com a usina. Como se percebe, um péssimo negócio.

Como é próprio da natureza humana, todos querem compartilhar o sucesso, já o fracasso é sempre órfão. O problema maior é que, desta vez, a propalada competência da presidente Dilma se encontra em jogo. Como os papéis referentes ao negócio passaram por suas mãos, de duas, uma: ou ela não entendeu o que leu ou não dedicou aos documentos a merecida atenção. Seja qual for o caso, a sua propalada competência fica posta em dúvida.

Esta talvez seja a pior crise por que passa o governo Dilma. Ao menos, é a mais grave. Ou ela encontra uma saída plausível, ou minimamente verossímil, ou sua propalada reputação despencará em queda livre. Com certeza, é a sua crise mais desgastante em termos de imagem. Isso sinalizou à Nação que ela não é tão infalível, como afirma ser.

Essa é também a grande chance que os oposicionistas sempre esperaram e agora lhes cai no colo, sem mais nem por quê. Quem souber se aproveitar disso acabará por herdar o Palácio do Planalto. Quanto aos outros, haverão de continuar pagando "placê".

Não é à toa que a presidente se mostra irascível e irritadiça. Ela cultuou pela vida toda a imagem de boa de tiro e agora, por um lapso de estratégia, assiste ao desmoronamento de toda a sua fama e reputação. Dona Dilma, que se manteve inabalável durante três anos e meio de mandato, sofre um desgaste que nunca lhe ocorreu que pudesse vir a enfrentar. Para reduzir os danos à sua imagem, terá de negociar muito com o Congresso Nacional e isso implica ouvir todo tipo de sugestões e propostas indecorosas. Tudo isso sem jamais perder a calma ou a paciência. Ela terá também de estar disposta a ceder cargos indispensáveis, negociar o inegociável e transigir com o intransigível. Há de ter em conta que tudo é necessário para se manter no cargo com um mínimo de dignidade.

A pergunta que não quer calar diz respeito à sua capacidade de resistir e virar o jogo. A palavra para isso é resiliência. E ninguém sabe se ela a tem, até que seja posta à prova.

Hércules, segundo a mitologia grega, também foi testado nesse quesito e conseguiu sagrar-se campeão. Por orientação do Oráculo de Delfos, precisou cumprir 12 tarefas praticamente impossíveis para se penitenciar por ter matado sua esposa e seus três filhos num acesso de loucura.

No Peloponeso, teve de matar o leão de Nemeia. Após estrangulá-lo, arrancou-lhe a pele e passou a usá-la como indumentária. A seguir matou a hidra de Lerna, uma serpente com corpo de dragão, que tinha nove cabeças. Depois correu atrás da corça de Cerineia, o que lhe demandou um ano de trabalho. Mas suas tarefas não se resumiram a isso. Para purgar a loucura que cometera e novamente se credenciar perante a opinião pública, couberam ainda outros trabalhos, entre eles, capturar o touro de Creta, limpar os currais de Augias, capturar vivo Diomedes - que possuía éguas que cuspiam sangue - e capturar também vivos os javalis de Erimanto. Tudo isso para provar ao povo que era capaz de governá-lo.

Quanto a Dilma Rousseff, o maior problema agora é a exiguidade de tempo. Ela deve à Nação, no mínimo, US$ 1,18 bilhão. Se Dilma for capaz de vencer todas as barreiras, bem poderá ser ungida novamente. Se não for, é de prever a extinção do PT da face da Terra. Com tudo o que ele representa de ruim: fanatismo, radicalismo, tumultos, pancadaria e muito mais. Finalmente os mansos herdarão a Terra. E tudo será como deve ser. Ou, ao menos, como deveria ser. Que tal desarmarmos nossos espíritos e imaginar um Paraíso despojado dessa gente belicosa, onde haja paz e concórdia sem essas ideias de luta de classes e beligerância?

Pensando bem, até que não seria uma ideia de todo ruim...

*João Mellão Neto é jornalista, foi deputado, secretário e ministro de Estado.

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