As Ciências do Homem num mundo globalizado

A Fundação Maison des Sciences de l'Homme (FMSH), em Paris, está em fase de intensa atividade pelas comemorações de seu jubileu. Foi em 4 de janeiro de 1963 que Georges Pompidou, então primeiro-ministro da França, assinou o decreto de sua criação. Se nasceu num tempo de glória paras as Ciências Sociais francesas, a FMSH sofreu as consequências do período de declínio das Ciências Sociais francesas, que coincide com a longa noite do predomínio das teses neoliberais no mundo.

Isabel Lustosa *,

15 Maio 2013 | 02h08

Afinal, numa ordem em que Margaret Thatcher, seu maior ícone, declarou que não existia essa coisa de sociedade, o que existia eram os indivíduos, não havia mesmo muito lugar para as Ciências Sociais. As grandes manifestações que, neste momento, agitam todo o Continente Europeu parecem indicar o despertar de uma consciência de que aquele individualismo tão radical favoreceu apenas alguns poucos. Parece indicar, ainda, que é chegada a hora de os trabalhadores empreenderem ações coletivas globais, reorganizando-se em sindicatos internacionais capazes de defender seus direitos diante de empregadores cada dia mais apátridas. Os europeus hoje desempregados têm cada vez mais motivos para se identificar com os trabalhadores da indústria da moda mortos em recente desabamento em Bangladesh. Com a perspectiva da volta à cena principal dos atores coletivos organizados, as Ciências Sociais precisam reinventar-se, e é nesse sentido que a proposta que orientará os debates do jubileu da FMSH é a de pensar seu papel num mundo globalizado.

Idealizador desse projeto, o presidente da FMSH, sociólogo Michel Wieviorka, desenvolveu - nos diversos artigos publicados no site da mesma fundação (http://www.msh-paris.fr) - os temas que nortearão as discussões. Diante da globalização dos processos econômicos, a mobilidade em escala mundial, lembra Wieviorka, tornou-se uma realidade e uma necessidade. As modernas tecnologias de comunicação são amplamente utilizadas pelos migrantes de hoje: eles se conectam. Com isso as subjetividades passaram a ser construídas rapidamente em espaços supranacionais em que a diversidade assume um caráter global. As contribuições culturais e religiosas dos fluxos migratórios vêm se conjugando com as transformações internas das sociedades receptoras para produzir novas identidades em escala planetária.

Por outro lado, o nacionalismo que a atual crise econômica favorece renasce com o desejo de fechamento das nações sobre elas mesmas em sua suposta homogeneidade cultural ou racial e a naturalização de atitudes racistas e de discriminação cultural e religiosa. Amplia-se a tendência ao fechamento de grupos de imigrantes em si mesmos, alguns estreitando seus laços por intermédio da religião, particularmente o Islã e o pentecostalismo, cuja expansão atual é notória, até em áreas onde antes não existiam.

O atendimento às demandas dos grupos que se sentem discriminados, no entanto, levanta outras questões. O reconhecimento das diversidades pode ser indiferente às questões de injustiça social ou deve considerá-las? Seria esse reconhecimento um obstáculo no caminho da superação das desigualdades econômicas e sociais? Em que medida as políticas de respeito à diversidade implicam processos de etnicização e racialização da vida coletiva?

Outro tema que vem, cada vez mais, permeando a política, lembra Wieviorka, é a questão ambiental. A consciência das dimensões globais da existência reforça os apelos pelo desenvolvimento sustentável e pela prevenção dos riscos globais relacionados, por exemplo, com a mudança climática. Essa agenda também faz questionar em que medida as políticas de estímulo ao emprego e de aumento de salários estão em conflito com o combate ao consumismo e à necessidade de preservar o planeta para as gerações que virão.

Entre a lógica da globalização, que desempenha um papel em todo o mundo, e a subjetividade dos atores, as Ciências Sociais sempre tenderam a separar os registros. De um lado, estão os estudos sobre mudanças econômicas, geopolíticas ou estratégicas. De outro, os processos de subjetivação e dessubjetivação por meio dos quais se constrói, se fragmenta e se reconstrói o vínculo social. Neles é que são inventadas formas de ação, individual e coletiva, declinam ou são transformadas as instituições, são desafiadas, destruídas ou modificadas as normas sociais e culturais. O projeto científico atual da FMSH tem como um de seus objetivos integrar esses dois tipos de estudos.

Com esse convite ao debate, a FMSH pode reconquistar a liderança da comunidade científica internacional. Cabe às associações congêneres de outros países - no caso brasileiro, a Anpocs, a ANPUH, a ABA, a SBS, a SBCP - responder a esse chamado. No site da FMSH e em sua página no Facebook, as numerosas instâncias de colaboração que se oferecem em todos os níveis e em todas as áreas das Ciências Sociais são um estímulo à participação. O lugar do Brasil ali precisa ser reforçado, especialmente num momento em que sua situação econômica privilegiada e seu crescente prestigio internacional lhe garantiriam uma acolhida calorosa. As questões que estão sendo debatidas na FMSH nos dizem respeito e hoje podemos contribuir com nossa experiência, pois, como disse Wieviorka (citando Eisenstadt), a Europa começa a realmente descobrir que não existe só uma forma de modernidade, existem "múltiplas modernidades". É preciso confrontar o status quo com outras possibilidades, levando em conta a contribuição, mas também os erros de um sistema que, a partir do Ocidente, vem ditando os destinos do resto do mundo.

* Isabel Lustosa é titular da Cátedra Sérgio Buarque de Holanda/Fondation Maison des Sciences de L'Homme e historiadora da Casa de Rui Barbosa, no Rio de Janeiro.
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