As confusões do sr. Janot

O sr. Rodrigo Janot, de certa forma, representa o pensamento dos procuradores que se autoatribuíram messiânicas missões - e se consideram muitas vezes acima da lei

O Estado de S.Paulo

22 Novembro 2017 | 04h30

Na entrevista ao Estado em que falou de seus problemas gástricos – confessou não ter “estômago” para ler os editoriais deste jornal críticos à sua atuação à frente da Procuradoria-Geral da República e ao açodamento de parte do Ministério Público nas ações contra a corrupção –, o sr. Rodrigo Janot reiterou o mau comportamento pelo qual se notabilizou ao longo de sua trajetória recente. Fez contra este jornal acusações graves sem nenhuma prova, baseadas apenas em suas presunções, exatamente como havia feito nas denúncias sem fundamento assacadas contra vários líderes políticos, a começar pelo presidente da República, a quem qualificou de “chefe de quadrilha”.

Disse o sr. Rodrigo Janot que o Estado precisa ter “um pouco mais de isenção” ao analisar os “trabalhos técnicos” do Ministério Público, “e não julgamentos políticos”. Em seguida, mesmo admitindo não ser de seu “conhecimento”, especulou que há por trás das decisões editoriais do jornal “alguma vinculação com o financiamento público da empresa ou amizades antigas entre pessoas do meio de comunicação e políticos que os vinculam muito proximamente”. Foi exatamente esse tipo de ilação que fez do sr. Rodrigo Janot, quando procurador-geral, protagonista de um lamentável show de denúncias irresponsáveis, que prejudicaram a recuperação da economia e a aprovação das reformas, além de ampliarem artificialmente o desgosto popular com os políticos e a política em geral. Um desserviço completo.

O sr. Rodrigo Janot disse que este jornal, em seus editoriais, faz “defesa explícita de quem cometeu ilícitos e finge que essa pessoa não cometeu ilícito nenhum”, além de dizer que “o ilícito é cometido por quem investiga”. Talvez a indisposição estomacal do ex-procurador-geral tenha prejudicado sua capacidade de compreensão de texto, pois o Estado jamais defendeu “quem cometeu ilícitos”. O que o Estado preza, e o sr. Rodrigo Janot, assim como muitos de seus ex-colegas, deveria também prezar, é o respeito absoluto ao Estado Democrático de Direito. Somos obedientes à lei, para não termos de nos curvar ao arbítrio de quem pretende fazer a lei sem ter as credenciais políticas para tal. Isso o sr. Janot não entende. Ninguém pode ser considerado culpado até a conclusão de seu julgamento, e é espantoso que alguém que chefiou um órgão cuja função é justamente defender a ordem jurídica tenha dificuldade de perceber o que é a defesa da lei e o que é a defesa “de quem cometeu ilícitos”.

Para o ex-procurador-geral, contudo, parece que todos os políticos são malandros, salvo as exceções que somente ele pode nomear. Todos querem minar a Lava Jato e prejudicar o trabalho do Ministério Público, todos têm algo a esconder da Justiça e todos pretendem usar o cargo e o voto para garantir impunidade. Trata-se obviamente de um absurdo, infelizmente esposado por muitos formadores de opinião, situação que desmoraliza a política tradicional e favorece os populistas, os demagogos e os salvadores da pátria em geral.

Na mesma entrevista, o sr. Rodrigo Janot manteve o tom de quem está a revelar ao País uma grande conspirata internacional de corruptos. Segundo ele, “merece ser investigado” o “fato” de que as autoridades dos países em que há desdobramentos da Lava Jato “estão reagindo de forma muito conforme, muito orquestrada”. E acrescentou: “Eu já estou velho demais para acreditar em todas essas coincidências”.

Mais adiante, ao avaliar o trabalho de sua sucessora, Raquel Dodge, afirmou que é preciso esperar “mais três meses” para saber se “as instituições brasileiras estão maduras, estão preparadas e a democracia está forte”, ou se “tudo não passou de uma bolha em que as pessoas certas” – no caso, o próprio sr. Rodrigo Janot – “estiveram na hora certa e nos lugares certos”.

Seria isso apenas um caricato arroubo de soberba não fosse o fato de que o sr. Rodrigo Janot, de certa forma, representa o pensamento dos procuradores que se autoatribuíram messiânicas missões e, nessa condição, se consideram acima das críticas e, muitas vezes, da lei.

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