As credenciais de cada um

Barack Obama não é o primeiro presidente dos Estados Unidos a apoiar de público a pretensão de um país, no caso a Índia, a uma vaga permanente no Conselho de Segurança (CS) das Nações Unidas. Cinco anos atrás, o seu antecessor, George W. Bush, fez o mesmo em relação ao Japão. Deu em nada, como se sabe - mas não se esperava que desse em algo. Afinal, o governo supremacista de Bush seria o último a endossar efetivamente qualquer proposta de reforma que desconcentrasse o poder no organismo, enfeixado pelos EUA, Rússia, França, Reino Unido e China, com a admissão de novos membros de igual status.

, O Estado de S.Paulo

14 Novembro 2010 | 00h00

Agora, o aval de Obama ao pleito de Nova Délhi, "nos próximos anos", parece pelo menos dividir as opiniões. A manifestação, segundo uma corrente, indicaria que Washington enfim estaria disposto a levar a sério a reforma, se não pelos méritos intrínsecos da ideia - a estrutura do CS, datada de 1945, tornou-se um anacronismo -, decerto para reequilibrar o balanço de poder no Sul da Ásia, dentro da estratégia de criar anteparos à projeção da China como potência global. Maior democracia do mundo, com instituições estáveis, uma economia cada vez mais pujante baseada em tecnologias de ponta, sócia do clube atômico e simpática ao Ocidente, a Índia se credenciou a esperar dos Estados Unidos mais do que um aceno simbólico.

Se sair a reforma na ONU, a sua ascensão ao Conselho é líquida e certa. A própria China, obviamente ciente das razões geopolíticas americanas para promover o vizinho e rival, reagiu com propriedade às palavras de Obama. O porta-voz da chancelaria chinesa afirmou que o país "entende e apoia" a reivindicação indiana. Um contraste e tanto com a resposta no caso do endosso de Bush ao Japão. Pequim deixou então claro que o passado militarista do país, que invadiu a China na 2.ª Guerra Mundial, representava um obstáculo à sua aspiração a um lugar permanente no CS. As tensões entre japoneses e chineses, apesar dos seus laços econômicos, são bem mais intensas do que entre esses últimos e os indianos.

A Índia e o Japão formam com o Brasil e a Alemanha o G-4, um dos grupos na ONU com propostas específicas de reforma do Conselho. A aliança defende a ampliação do seu corpo permanente de 5 para 10 ou 11 nações - as do G-4, mais uma ou duas da África. É o que leva o chanceler brasileiro, Celso Amorim, a argumentar que "Brasil e Índia não disputam a mesma vaga". No entanto, nada garante de antemão que o G-4 entre em bloco no CS, na hipótese de a reforma vingar. A escolha dos novos integrantes dependerá do voto de 2/3 dos 192 países-membros da ONU, referendado pelos 5 detentores de poder de veto no Conselho.

As chances individuais variam de acordo com a direção dos ventos da política e da economia global. Por isso, assinalou o ex-chanceler Luiz Felipe Lampreia em artigo publicado terça-feira neste jornal, as chances do Japão diminuíram à medida que seu papel na ordem econômica contemporânea perdeu vigor. Na Ásia, além disso, a sua influência política está longe de ser dominante. Contra a Alemanha, por outro lado, pesa não a economia, evidentemente, mas a geografia: com França, Inglaterra e Rússia, a Europa já está sobrerrepresentada no CS. Já o caminho do Brasil foi parcialmente pavimentado, sendo o seu principal obstáculo a oposição de vizinhos como a Argentina, a Colômbia e o México.

A expressão internacional do País é hoje substancialmente maior do que há duas décadas, quando o então secretário-geral da ONU, Kofi Annan, anunciou que era tempo de incluir na agenda do organismo a mudança na estrutura do Conselho. Além disso, como sempre lembra o Itamaraty, a tradição pacifista e a consistente defesa das organizações multilaterais como foro para a resolução de conflitos entre os países pesam a favor do Brasil. O paradoxo é que, por não ser a América Latina foco de tensões internacionais ou região de risco para a segurança global - felizmente -, o Brasil fica aquém do radar das grandes potências. O País não figura, por exemplo, na lista de prioridades da Casa Branca.

Embora o presidente Lula tenha feito do ingresso no CS a prioridade da sua política externa, nesse torneio o Brasil não é cabeça de chave.

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