As crianças de Macondo

Todos leram ou ouviram falar sobre Cem Anos de Solidão (1967), do colombiano Gabriel García Márquez, morto no ano passado. Em 1982, laureou-se com o Nobel de Literatura. Os especialistas dizem ser uma narrativa que rivaliza com o lendário Dom Quixote, a obra-prima da língua espanhola.

ZANDER NAVARRO, O Estado de S.Paulo

13 Outubro 2015 | 03h01

O livro de García Márquez simboliza à perfeição o realismo mágico ou, ainda, o real maravilhoso, gênero literário que explodiu durante algum tempo entre os mais influentes escritores homens do continente. Como curiosidade, essa aura de sucesso foi enfraquecida quando surgiram inúmeras escritoras da região que alcançaram fama nos anos posteriores, como Isabel Allende.

O real maravilhoso é um subproduto do surrealismo e outro genial escritor, o cubano Alejo Carpentier, autor do clássico O Reino deste Mundo (1949), definiu sua essência como tudo aquilo que seria excepcional na vida humana, acrescentando, porém, que “o extraordinário não é forçosamente belo ou sedutor. Não é belo ou feio, mas é principalmente assombroso por ser insólito. Tudo o que escapa às normas estabelecidas é maravilhoso”.

Cem Anos de Solidão descreve sob uma exuberância delirante o inesperado e o incomum, narrando a história de três gerações da família Buendía, em meio a uma população que perde a memória, uma bela mulher ascendendo aos céus envolta em lençóis brancos, ou, ainda, homens capazes de atrair para si um enxame de borboletas amarelas. São passagens mágicas que transcorrem no vilarejo mítico de Macondo e tornam a sua leitura irresistível.

Para os críticos, esse livro seria a metáfora irretocável da História latino-americana, uma luta incessante contra realidades trágicas e brutais, inacreditáveis. O real maravilhoso realçaria mais vivamente o cotidiano de suas populações, refugiando-se em fabulações alucinatórias que seriam as fugas coletivas à opressão existente desde sempre.

Como sabemos bem, Macondo não é um vilarejo das cercanias de Arataca, onde nasceu Márquez. De fato, Macondo é o Brasil. Senão, como entender o nosso país e o seu enraizado real maravilhoso que nos serve como canal de escape – o futebol ou o carnaval à frente? E se incluirmos o mundo da política ou o absurdo Estado brasileiro? Ou ainda o fantástico recente período durante o qual o campo petista tem atuado no poder? Somos uma nação de cegos ou apenas inebriados por algum pó mágico que nos imobiliza, incapazes de alguma reação consequente contra a manipulação que nos transforma em marionetes?

Se brasileiro fosse, García Marquez produziria uma enciclopédia, tal a riqueza material à sua disposição.

Exagero? Ora, este espaço não permite nem esboçar a lista das nossas infinitas excentricidades cotidianas. Duas ilustrações da política: uma, de 2003, enquanto a outra é recente e nos faz rir nervosamente. Naquele primeiro ano, um botocudo autointitulado embaixador quis praticamente eliminar o uso da língua inglesa no cotidiano de nossas relações internacionais, lembram-se? Já o fato atual foi propor um orçamento destinado a gastar sem ter recursos para isso, o que nos garante largo destaque nas olimpíadas das tolices humanas. Entre esses extremos teríamos uma lista a perder de vista.

Por que somos assim, sempre privilegiando o insólito, a ignorância e a irracionalidade? É pergunta que animaria um debate necessário e urgente, como via para iluminar os nossos bloqueios culturais. Sem detalhamento, o que deixarei para outros ensaios futuros, lanço a aposta: são três os fatores maiores que explicam esse avassalador comportamento errático, incoerente e escancaradamente infantil que comanda quase todos nós.

Primeiro, a nossa história rural e seu legado escravocrata. Apenas duas gerações atrás éramos um país agrícola e agrário. Um espaço social sem justiça e abandonado ao poder absoluto dos grandes proprietários de terras. Produziu uma população de migrantes atemorizada e servil, hoje reproduzindo sua submissão nas cidades. Essa herança explica, por exemplo, desde a existência de escravas domésticas – as quais somente agora começam a ter alguns direitos – até o Estado patrimonialista que nos oprime. É o que explica a aceitação passiva de nossa degradante estrutura de desigualdades, ancoradas nesse padrão histórico.

Essa naturalização aceita irrefletidamente nos leva ao segundo fator causal. Desta vez é cultural e nos remete à religião dominante que mantemos entre nós. É o “catolicismo de coitadinhos”, uma explicação do mundo que transfere sempre a resolução dos problemas para o inatingível além, seja em sua forma ortodoxa ou em sua versão “progressista” – o catolicismo combinado com um marxismo primário, que promete “um outro mundo possível”, sem nunca explicitá-lo em termos práticos. A profunda religiosidade dos brasileiros sob esse arcabouço, realço respeitosamente, é outro fator explicativo do atraso de nossa sociedade.

Finalmente, o terceiro fator é político e diz respeito à indigência intelectual da esquerda. São aqueles que deveriam ser abertos à revelação do nosso infantilismo fatalista e confrontá-lo com rigor, apegar-se aos fatos e às evidências do mundo real e sugerir caminhos viáveis. Mas, ao contrário, nossa esquerda, com raras exceções, afirma ainda mais a densidade pueril de nossa imensa Macondo. Nestes anos recentes, autointitulando-se como tal, o petismo no poder desmoralizou completamente esse campo político.

Reconheça-se que são sugestões ainda preliminares para o debate. Mas precisamos, com urgência, abrir uma discussão nacional sobre nosso povo, sua identidade e nossas possibilidades objetivas. Não é mais possível continuar nesse fingimento permanente sobre nós mesmos, pois assim o destino será manter intacta a Macondo brasileira, sem jamais deixar a infância. García Márquez não faria melhor.

ZANDER NAVARRO É SOCIÓLOGO E PESQUISADOR EM CIÊNCIAS SOCIAIS/ E-MAIL: Z.NAVARRO@UOL.COM.BR

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