As digitais do 'estilo K'

Uma pesquisa da Universidade Di Tella, em Buenos Aires, dá ideia do ânimo da população argentina em relação à política econômica da presidente Cristina Kirchner - e do ceticismo com que são recebidos os números do governo sobre essa matéria. Segundo o levantamento, os argentinos acreditam que a inflação acumulada nos próximos 12 meses será de aproximadamente 34%, mais do triplo do que prevê o governo. A Argentina tem a duvidosa distinção de ter a segunda maior inflação do mundo, abaixo apenas da da Venezuela.

, O Estado de S.Paulo

19 Outubro 2010 | 00h00

Com a costumeira desfaçatez, o governo nega a disparada dos preços - como se fosse possível enganar os consumidores que a sentem na pele -, atribuindo os alertas a respeito a "conspirações" da oposição e da imprensa, como diz o boquirroto ministro da Economia, Amado Boudou. O que existe, na realidade, além do palavreado e dos lances populistas do kirchnerismo, é a sistemática deturpação dos dados sobre o custo de vida no país.

Em 2007, o então presidente Néstor Kirchner acabou com a autonomia do órgão que, entre outras coisas, mede a inflação. É o Instituto Nacional de Estatística e Censos (Indec), o equivalente argentino do IBGE. A intervenção da Casa Rosada acabou também com a credibilidade dos levantamentos do instituto. Quando este anuncia, por exemplo, que a inflação de setembro último ficou em 0,7%, a opinião pública e os mercados preferem os cálculos de economistas independentes e organizações de defesa do consumidor, segundo os quais o índice verdadeiro foi além do dobro disso, entre 1,6% e 1,8%.

A Argentina é um dos dois países-membros do FMI - o outro, naturalmente, é a Venezuela - que se recusa a submeter as suas estatísticas à avaliação do organismo, ou à auditoria de qualquer outro, por sinal. Uma das grandes bravatas dos Kirchners é a decisão, tomada há 5 anos, de usar as reservas nacionais para pagar antecipadamente a dívida do país com o Fundo. O que as patriotadas do casal escondem é que ao mesmo tempo a Argentina vendeu à Venezuela US$ 9,2 bilhões em títulos da dívida pública, a juros de 14%, muito mais do que pagava ao FMI.

Ao descalabro econômico-financeiro, somam-se o infantilismo político e a truculência habitual das autoridades kirchneristas. Na recente assembleia anual do FMI e do Banco Mundial, em Washington, Boudou, o ministro da Economia, declarou que "o Fundo questionou os números (argentinos) e nós questionamos muito mais as suas ideias". Perguntado por dois jornalistas do Clarín e do La Nación - jornais contra os quais a Casa Rosada move campanha destrutiva - sobre o futuro das relações da Argentina com o FMI, o ministro estarreceu a todos ao comparar os repórteres aos "empregados que limpavam as câmaras de gás durante o nazismo". Referiu-se ainda à "imprensa assassina".

Só quatro dias depois, o desbocado Boudou dirigiu-se à sede da Daia, que congrega as associações judaicas argentinas, para reconhecer que usara uma "metáfora inapropriada". Ainda assim, recusou-se a pedir desculpas aos jornalistas. O episódio tem as digitais do "estilo K", como os argentinos denominam o comportamento dos governos do casal Kirchner. Semanas atrás, o chefe do gabinete do Ministério, Aníbal Fernandez, chamou de "mentirosos e descarados" os juízes que concederam uma liminar bloqueando uma manobra da presidente para fechar a Fibertel, empresa de internet do Grupo Clarín. Numa mensagem de twitter, a própria Cristina considerou a sentença uma "obscenidade judicial".

O ódio ao Judiciário, que se traduziu também na represália de cortar arbitrariamente 38% das verbas para o setor no próximo ano, vem das sucessivas derrotas do governo nas cortes federais no caso da Lei de Mídia, criada com o inequívoco intento de quebrar os grupos de comunicação críticos do kirchnerismo, como os do Clarín e La Nación. Diversos juízes suspenderam parcialmente a vigência da lei desde o início do ano. Da inflação maquiada às tentativas de controlar o Judiciário e amordaçar a imprensa, a Argentina dos Kirchners é a versão platina da Venezuela de Chávez.

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