As eleições do PT

O atual presidente nacional do Partido dos Trabalhadores (PT), jornalista e deputado estadual em São Paulo Rui Falcão, obteve uma vitória arrasadora na quinta eleição direta interna para a escolha do principal dirigente petista. Essa vitória, anunciada na terça-feira, quando ainda faltavam 20% das urnas a serem apuradas, não deixou dúvida quanto à hegemonia do grupo considerado "pragmático", tanto na disputa eleitoral quanto na gestão pública: 70% dos militantes habilitados a votar o reelegeram - a maior proporção alcançada por um presidente eleito desde a escolha por voto direto, em 2001.

O Estado de S.Paulo

16 Novembro 2013 | 02h09

Não faltaram percalços na disputa eleitoral deste ano, que começou à sombra de uma grave denúncia de compra de votos. Esta ganhou corpo com a constatação de um crescimento anômalo de petistas inscritos e autorizados a votar. Mas relevância maior na discussão sobre os rumos do partido sob a mesma direção renovada teve a indiferença da militância. Muito mais da metade dos petistas não compareceu à eleição no Estado do Rio de Janeiro, na qual o partido pretende apresentar um candidato próprio, o senador Lindbergh Farias, rompendo uma aliança que vinha sendo bem-sucedida, pelo menos do ponto de vista eleitoral, com o PMDB do governador Sérgio Cabral Filho, que lançou a candidatura de seu vice, Luiz Fernando Pezão.

Do total de 1,7 milhão de filiados do partido, 806 mil estavam aptos, mas votaram 421.832 e quase a metade não o fez, tendo a abstenção superado a da última disputa, em 2009, quando José Eduardo Dutra venceu no primeiro turno com 55% dos sufrágios depositados por 520.417 votantes. Nem José Dirceu, primeiro presidente nacional eleito diretamente, atingiu a margem alcançada pelo candidato que ele apoiou agora: em 2001, o hoje principal réu do mensalão teve 56% dos votos, ganhando no primeiro turno com mais votos do que Ricardo Berzoini, seu sucessor, teria na eleição em 2005 (42%) e na reeleição em 2007 (44%), em ambos os casos no segundo turno.

Em artigo publicado no Estado, o cientista político da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e diretor-geral do Instituto Cultiva em Belo Horizonte, Rudá Ricci, constatou "profundas mudanças" neste último processo eleitoral. Segundo o cientista político, "a participação direta de Lula e medalhões do partido na convocação dos eleitores filiados; a direção quase exclusivamente nas mãos de políticos profissionais; o índice de abstenção, que no Rio de Janeiro foi muito superior a 50%; e as críticas generalizadas de dirigentes sobre um processo desgastante, fratricida e pouco participativo indicam que o partido da participação direta vem se transmutando em partido da ordem".

Na verdade, quando de sua fundação, em 1980, o PT estava longe de ser o partido de massas que é hoje. Inicialmente, era uma congregação que reunia egressos da luta armada contra a ditadura militar, militantes da esquerda católica nas Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), a ala esquerda do Partido Democrata Cristão (PDC), e sindicalistas ditos "autênticos", que, nas greves dos anos 1970, principalmente as dos metalúrgicos do ABC paulista, se posicionaram contra os pelegos atrelados ao Ministério do Trabalho desde Vargas e os comunistas.

Nessa fase inicial, sua palavra de ordem era "mudar tudo o que está aí", proposta que acompanhou Lula em quatro derrotas eleitorais, uma para o governo de São Paulo em 1982, na qual ficou em quarto lugar, e três seguidas para presidente, vencidas uma por Fernando Collor e duas por Fernando Henrique. A vitória sobre José Serra, do PSDB, em 2002, resultou da decisão pragmática de compor uma ampla aliança partidária, que, na reeleição de 2006, incluiu um adversário histórico, o PMDB, que forneceu o vice da chapa petista de Dilma Rousseff, em 2010.

A virada pragmática de 2002 ganhou força com a reeleição de Falcão, que garante a ampla frente partidária para reconduzir Dilma Rousseff a mais um mandato de quatro anos. O PT ficou ainda mais forte, mas mais distante de sua utopia de origem.

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