As encomendas da Petrobrás

Dos oito estaleiros que construirão e montarão no País as 33 sondas de perfuração em águas profundas encomendadas em 2011 pela Petrobrás para a exploração do petróleo do pré-sal, apenas três estão prontos e operam sem restrições. Os cinco restantes ainda não saíram do papel ou estão parcialmente construídos. Em alguns casos, o contrato com a Petrobrás prevê o avanço das obras do estaleiro simultaneamente à construção das primeiras embarcações encomendadas, num sistema qualificado como "estaleiros virtuais".

O Estado de S.Paulo

10 Março 2012 | 03h04

A experiência com esse tipo de estaleiro não tem sido muito positiva para a Petrobrás, que, além das sondas para exploração do petróleo do pré-sal, precisará de dezenas de navios petroleiros para suas operações nos próximos anos. Criado no primeiro governo Lula, o Programa de Modernização e Expansão da Frota da Transpetro (Promef) tem encomendas de 49 embarcações.

Destas, 22 foram encomendadas ao Estaleiro Atlântico Sul (EAS), instalado no Porto de Suape. As primeiras unidades estão sendo construídas e montadas ao mesmo tempo em que o estaleiro vai sendo concluído. O resultado prático dessa combinação é o atraso da primeira unidade, o petroleiro João Cândido, que, embora lançado com grande pompa em maio de 2010 pelo então presidente Lula e entregue à Transpetro em agosto daquele ano, ainda não chegou ao mar por causa de problemas com solda e nivelamento e agora passa por testes. O EAS não deu prazo para o petroleiro entrar em operação.

O sistema de "estaleiro virtual" foi adotado na contratação de seis sondas para o pré-sal a serem construídas pelo estaleiro Jurong Aracruz, a ser erguido em Barra do Sahy, na cidade capixaba de Aracruz. O estaleiro tem prazo de 48 meses após a assinatura do contrato para entregar a primeira sonda; as outras serão entregues em prazos determinados.

O governo de Santa Catarina e a prefeitura de Aracruz - que, além de cederem o terreno, ofereceram benefícios tributários, em troca da formação de mão de obra especializada e preferência na contratação de trabalhadores locais - têm grandes esperanças de que o estaleiro traga benefícios à região. Mas, para atender às expectativas dos governos locais e cumprir os contratos, o Jurong Aracruz terá de andar depressa, na construção e montagem das sondas e, sobretudo, nas obras civis. A reportagem do Estado percorreu o local onde será construído o estaleiro e constatou que, por enquanto, só há mato. Nem o trabalho de terraplenagem foi iniciado.

O projeto é ambicioso. As encomendas assegurarão a operação do novo estaleiro por cerca de 30 anos, com o emprego de até 6 mil trabalhadores diretos e indiretos. O fato de o Jurong Aracruz pertencer a um dos maiores grupos da indústria naval do mundo, com cinco estaleiros em Cingapura, sugere que, apesar dos prazos e das eventuais dificuldades operacionais, os contratos poderão ser cumpridos.

É necessário ressalvar, no entanto, que a presença de uma empresa com experiência internacional no grupo controlador de um estaleiro contratado para fornecer para a Petrobrás não é garantia de cumprimento pleno das condições contratuais.

Responsável pela parte tecnológica do projeto do estaleiro EAS, a coreana Samsung Heavy Industries detém apenas 6% do grupo que o controla - os principais sócios são os grupos Camargo Corrêa e Queiroz Galvão. Embora ainda não tenha entregue a primeira unidade encomendada pelo Promef, o EAS recebeu vários outros contratos na área de petróleo. Além das encomendas dos petroleiros, ganhou as de sete das 33 sondas para o pré-sal. Sobre o cronograma para a entrega dessas unidades, o EAS disse ao Estado que "reavalia os prazos no sentido de atender o mais rapidamente possível as encomendas".

Na semana passada, a presidente da Petrobrás, Maria das Graças Foster, se reuniu com os sócios do EAS para examinar o andamento dos contratos. Na segunda-feira (5/3), o jornal Valor informou que Foster está negociando a mudança do controle do EAS, para tornar a Samsung sua maior acionista.

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