As escolhas de Obama

Impedidos de se candidatar a um terceiro mandato, os presidentes dos Estados Unidos reeleitos uma vez podem se dar ao luxo de tomar decisões sem a servidão de atentar para as suas consequências nas urnas. Quando em minoria no Congresso, podem também fazer escolhas que tendem a acentuar antes o confronto do que a conciliação no trato com a maioria parlamentar que lhes seja adversa. A contrapartida, naturalmente, é o risco de descerem os degraus da Casa Branca, quando chegar a hora, sem a certeza de subir ao pódio da história, por não terem conseguido emplacar mudanças de longo alcance, à falta de acordos com o Legislativo.

O Estado de S.Paulo

07 Junho 2013 | 02h08

No caso de Barack Obama, ele sempre poderá dizer que enfrentou uma oposição obcecada em destruí-lo politicamente, a ponto de não respaldar nem sequer propostas do Executivo já diluídas, como a da tentativa de instituir um mínimo de controle sobre a venda de armas no país. Nas últimas semanas, como quem desafia as bancadas republicanas hegemônicas no Capitólio, ele assinou uma série de nomeações para cargos de variada importância no governo, sabendo que poderão ser derrubadas. (Nos EUA, as indicações do presidente da República para o seu Gabinete e um certo número de outros postos dependem do aval do Senado.)

Mas a composição do Conselho de Segurança Nacional é de alçada exclusiva do ocupante da Casa Branca - e Obama acaba de se valer dessa prerrogativa para se vingar dos políticos que o hostilizam, escolhendo a embaixadora americana nas Nações Unidas, Susan Rice, para chefiar o órgão. Ela havia sido obrigada a desistir da Secretaria de Estado, para a qual era tida como favorita, quando a então titular do cargo, Hillary Clinton, resolveu que não acompanharia Obama no segundo mandato. Os senadores republicanos deixaram claro que não aprovariam a nomeação de Susan, uma respeitada estudiosa de política externa que trabalhou na Casa Branca de Bill Clinton e na primeira campanha de Obama.

A oposição não lhe perdoou ter atribuído o atentado que matou o embaixador dos EUA na Líbia, Chris Stevens, em setembro do ano passado, a um protesto espontâneo contra um vídeo ofensivo ao Islã, e não a uma ação terrorista. Para o lugar que seria dela, Obama acabou chamando o candidato presidencial democrata de 2004, John Kerry. Em breve, Susan ocupará um escritório a pouca distância do gabinete presidencial. A sua cadeira na ONU ficará com a amiga Samantha Power, que cobriu como jornalista as guerras civis na antiga Iugoslávia e escreveu uma biografia do alto-comissário da ONU para os Direitos Humanos, o brasileiro Sérgio Vieira de Mello, morto no Iraque em 2003, e o livro Genocídio, um libelo contra a passividade das democracias ocidentais diante dos crimes contra a humanidade, desde o massacre dos armênios por forças turcas entre 1915 e 1923, aos morticínios na Bósnia e em Ruanda, nos anos 1990. Susan e Samantha são partidárias do "intervencionismo humanitário". Para elas, os EUA têm o dever moral e político de usar até a força contra o deliberado extermínio de civis por regimes ditatoriais ou contra políticas de "limpeza étnica". A dupla ajudou a convencer Obama a apoiar a intervenção da Otan na Líbia de Muamar Kadafi, em 2011.

Mas, em meados de 2012, quando Washington debatia a conveniência de armar os rebeldes sírios em desvantajoso combate com o regime de Bashar Assad, Susan se opôs à iniciativa. Ainda que possa ter mudado de ideia, o fato é que Obama já fechou questão a respeito: não quer envolver os EUA em outro conflito no Oriente Médio. Foi o que disse obliquamente ao anunciar a escolha de Susan. "Todos sabemos que (ela) é uma ardente defensora da justiça e da dignidade humana", elogiou, para emendar: "Mas ela também tem consciência de que temos de exercer o nosso poder com sabedoria e ponderação".

O que parece mudar com as nomeações, em suma, não é a orientação cautelosa da política externa de Obama, mas o seu tom - e o grau de controle da Casa Branca sobre a sua execução, entregue a quadros escolhidos a dedo.

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