As exigências do ditador sírio

O ditador sírio Bashar Assad parece ter se imposto a incumbência de assegurar que a esperança de ao menos interromper-se a carnificina em curso no país há 13 meses esteja fadada a morrer - uma vez e outra e outra ainda. Semanas atrás, o ex-secretário-geral da ONU Kofi Annan, representando a organização e a Liga Árabe, apresentou a Assad um plano para o estabelecimento de uma trégua entre o regime de Damasco e os movimentos que desafiam o seu poder. Entre outras provisões do texto, um cessar-fogo supervisionado por uma força internacional de paz, a ajuda humanitária às populações vítimas da implacável repressão ordenada por Assad, a soltura dos civis detidos sob suspeita de pertencer ou dar apoio aos "terroristas", como o governo se refere aos insurgentes, abririam caminho para o término do confronto que já deixou perto de 10 mil mortos, mediante uma transição política negociada.

O Estado de S.Paulo

10 Abril 2012 | 03h07

O plano, em essência, é uma variante do esquema concebido em fins de 2011 pela Liga Árabe que Assad se recusou a aceitar, apesar das ameaças dos países vizinhos de punir a Síria com sanções econômicas e diplomáticas. No Oriente Médio, o seu único sustentáculo é o Irã de Mahmoud Ahmadinejad. No Conselho de Segurança da ONU, ele conta com o poder de veto da Rússia e da China para não ser alvejado pelas medidas mais adstringentes que poderiam, quem sabe, solapar as bases da ditadura que herdou do pai, o sanguinário Hafez, em meados de 2000. Pela proposta de Annan, hoje expiraria o prazo para Assad retirar os seus blindados das cidades conflagradas. Passadas 48 horas, entraria em vigor a trégua imaginada para tornar possíveis as negociações entre Damasco e as ainda fragmentadas organizações rebeldes em torno de uma agenda de mudanças políticas.

A primeira evidência de que, para Assad, o plano não valia o papel em que estava escrito - a exemplo das suas próprias promessas democratizantes - irrompeu no fim de semana com o recrudescimento da repressão em áreas residenciais e outra centena e tanto de mortes. Seguiu-se a exigência oficial de que os insurretos apresentassem "garantias escritas" de sustar as suas ações, sem o que os tanques continuariam nas ruas. Naturalmente, a demanda foi rejeitada. Para não deixar dúvidas da intenção do regime de implodir o plano Annan, ao qual simulou ter aderido, Assad também exigiu à última hora que a Arábia Saudita, o Catar e a Turquia prometessem formalmente que deixariam de financiar os "grupos terroristas". Ontem, em um desdobramento ominoso, o governo de Ancara acusou franco-atiradores de abrir fogo contra alvos nas cercanias do maior campo de refugiados sírios em solo turco, matando duas pessoas e ferindo três outras.

A Turquia abriga também os comandantes do Exército Livre da Síria, formado por desertores das forças de Assad que se transformaram no braço armado da insurgência civil contra a sua ditadura. A posição do governo do primeiro-ministro Recep Tayip Erdogan é de manter as fronteiras turcas abertas aos refugiados - que já somam 24 mil - e de cobrar "mais firmeza" da ONU em relação ao regime do qual buscam escapar. Não se sabe que forma poderia assumir esse endurecimento, considerando o bloqueio russo-chinês às tentativas ocidentais de forçar Assad a ceder. De todo modo, correm rumores de que a Turquia estaria tentada a criar, de ambos os lados da fronteira, um santuário para os fugitivos. É o espectro da internacionalização do conflito político sírio. Qualquer coisa nesse sentido abrirá na região, como costumam dizer os árabes, "as portas do inferno".

Enquanto Annan se assoberba na tentativa de romper o impasse criado por Assad - o enviado da ONU chega hoje a Istambul, antes de seguir para Teerã -, o mais recente gambito do ditador é interpretado como prova de que ele espera nada menos do que a rendição da insurgência para só então negociar com os seus líderes. Uma trégua entre iguais, argumenta-se, equivaleria a convidar os sírios a reabrir o ciclo de manifestações de massa a ponto de arrombar as comportas do regime.

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