As 'fake news' e a escassez de honestidade intelectual

Predisposição violenta está presente de modo estridente nas camadas mais letradas do País

*EUGÊNIO BUCCI, O Estado de S.Paulo

13 Setembro 2018 | 03h00

Na segunda-feira passada, no Insper, em São Paulo, tomei parte de um debate sobre as fake news e o papel saneador do jornalismo contra elas. Na terça-feira fui até Campinas para um seminário – organizado pela Folha de S.Paulo e pelo Instituto de Estudos Avançados da Unicamp – a respeito de fake news, pós-verdade e imprensa. Hoje à noite falo em São Paulo sobre o mesmo tema na B’nai B’rith, entidade judaica dedicada à defesa dos direitos humanos. Na semana que vem estarei no USP Talks (uma parceria da USP com o jornal O Estado de S. Paulo). No final do mês devo ir ao Rio de Janeiro para duas palestras também sobre isso: uma no congresso internacional Educação 360, promovido pelos jornais O Globo e Extra, e outra na Escola de Magistratura do Estado do Rio de Janeiro.

Há tempos eu não via – e não vivia – um processo de mobilização tão intenso. A defesa da informação fidedigna, o combate às falsificações industriadas nas plataformas sociais e a preservação da qualidade do debate público ganham espaço crescente na agenda nacional. Estive este ano no Comitê Gestor de Internet no Brasil, no Conselho Regional de Biblioteconomia e na Justiça Eleitoral para tratar de fake news. Enquanto isso, brotam núcleos de verificação de fatos, cujo trabalho se vem mostrando cada vez mais eficiente. Entre outros, lembro aqui o Projeto Comprova, integrado por dezenas de redações independentes (entre as quais o Estado), pela Agência Lupa, pelo Aos Fatos e pelo Truco (da Agência Pública).

As estratégias para esclarecer a opinião pública e vaciná-la contra as cybermentiras se multiplicam. Recentemente a Plataforma Democrática publicou um guia claro e instrutivo a esse respeito, Sobrevivendo nas Redes, de Bernardo Sorj, Francisco Brito Cruz, Maie Wile dos Santos, Marcio Moretto Ribeiro e Pablo Ortellado. O Projeto Credibilidade (capítulo brasileiro do Trust Project), do Projor e da Unesp, fornece subsídios essenciais para quem quer aprofundar-se nesse universo. A revista Nova Escola, com apoio do Instituto Palavra Aberta, lançou um programa que ajuda professores a prepararem crianças e adolescentes para se defenderem contra as fraudes em pele de notícias jornalísticas.

Muita coisa boa vem sendo feita. A lista de iniciativas poderia estender-se por parágrafos e parágrafos, mas não devo abusar da prestimosa paciência do improvável leitor. Só devo deixar bem claro que tenho razões factuais para afirmar que a sociedade brasileira se deu conta do problema e partiu para a ação. Tudo para evitar que as fraudes noticiosas causem no Brasil os mesmos estragos que causaram na eleição americana de 2016. Tem sido inspirador para nós o exemplo das eleições francesas, em que o desastre informativo não foi tão grande graças às redações profissionais e a segmentos diferentes da sociedade civil, que se uniram em defesa da verdade factual.

O que está acontecendo no Brasil tem semelhanças com o caso francês. A sociedade civil levanta-se contra a indústria da mentira. Por sorte, não prosperaram entre nós as ideias nefandas de impor filtros estatais (censura velada) para impedir a circulação de mensagens consideradas inverídicas. Seria uma calamidade. A melhor proteção contra as inverdades é a liberdade plena para contestá-las e desmenti-las na arena pública – e é por essa trilha, a da liberdade, que a sociedade brasileira vem caminhando. Tanto melhor.

Mesmo assim, uma pergunta continua a nos espreitar: as fake news conseguirão levar esta eleição? A indústria das mentiras políticas dará conta de enganar os eleitores e levá-los a votar de uma forma que eles não gostariam? Ainda não sabemos. Temos vulnerabilidades muito graves que ainda não foram resolvidas.

Os acompanhamentos monitorados das redes sociais sobre temas de interesse público, como os estudos da Diretoria de Análises de Políticas Públicas (Dapp), da Fundação Getúlio Vargas do Rio de Janeiro, mostram uma opinião pública polarizada e conflagrada. As pesquisas eleitorais corroboram esse retrato: as grandes massas de eleitores parecem tender aos extremos, deixando o centro esvaziado. Em contextos assim, o bom senso e a razoabilidade perdem terreno para paixões furiosas, carregadas de ódio, preconceito e intolerância.

Além da vulnerabilidade própria de uma opinião pública conflagrada, existe outra, de natureza subjetiva: entre nós, a honestidade intelectual está em baixa. Gente semianalfabeta e gente instruída, com pós-doutorado, replica fake news de forma acrítica. A elite intelectual parece estar convencida de que, para fazer sangrar o lado oposto, a mentira é uma aliada virtuosa. Nesse ambiente, as fake news ainda poderão, sim, levar a melhor (para um lado ou para outro).

A despeito das boas ações para desmontar as notícias fraudulentas, segue inabalável essa predisposição violenta – pulsional – que atua a favor delas. O mais chocante é que a predisposição violenta não se restringe aos bolsões do analfabetismo funcional, está presente de modo estridente nas camadas mais letradas do País. Pessoas bem formadas propagam fake news num polo e no outro. Ou estão idiotizadas pelo fanatismo ou acham que o resto da humanidade é idiota e não vai perceber os embustes que agenciam.

De um lado, estão aqueles que se recusam a ver qualquer resquício de conduta criminosa nos governos do PT, os que dizem que todas as acusações e condenações não passam de calúnias urdidas por um complô reacionário. De outro, gritam os que consideram todos os petistas corruptos desde criancinhas e que entendem que vale tudo para afastá-los de qualquer cargo público. Para uns e para outros, a mentira é uma ferramenta válida em nome do “bem maior” que é varrer o inimigo do mapa eleitoral.

Diante disso, as conquistas da sociedade brasileira para combater as fake news podem morrer na praia. Sem honestidade intelectual, a verdade não para em pé.

*JORNALISTA, É PROFESSOR DA ECA-USP

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