As ilusões do novo mundo

O Brasil não acabou com o incêndio na Quinta da Boa Vista. Só ficou mais pobre

*FERNANDO GABEIRA, O Estado de S.Paulo

07 Setembro 2018 | 03h00

A destruição do Museu Nacional aconteceu no auge da campanha política. Talvez sirva, ao menos, para que os candidatos despertem para a importância de uma política cultural e de preservação do patrimônio histórico. Talvez porque, às vezes, a crise é tão aguda e prolongada que o corpo não responde mesmo a estímulos cavalares como a perda parcial da memória do País.

Nas viagens semanais pelo País, convivo com inúmeras experiências locais de preservação da memória. Museus pequenos, às vezes improvisados, surgem em vários pontos do Brasil. A razão de sua existência é muitas vezes também econômica. São pequenas cidades com belezas naturais que querem, de certa forma, encontrar sua identidade e agregar valor às suas atrações turísticas.

Dias logo antes de o Museu Nacional desaparecer numa noite de domingo, tinha feito uma viagem entre Rio e Minas. O objetivo era percorrer nove cidades ligadas por um trem comprado em Três Rios, sem nenhuma ajuda do governo. O final da linha desse trem será Cataguases. E precisamente em Cataguases conversei com as autoridades sobre a possibilidade de um museu que pudesse abarcar a presença da cidade no movimento modernista. Poucos sabem que ali foi lançada a Revista Verde, que era defensora do modernismo nascente. E que a cidade tinha um poeta e escritor chamado Rosário Fusco, que merecia ser lembrado.

Na verdade, escritores e artistas são bons temas para pequenos museus. Na Copa do Mundo, fiquei impressionado como existem museus cultuando escritores na Rússia. Existe uma diferença de idade entre os dois países e também de importância de duas literaturas, sobretudo no século 19.

Em Volta Grande, colada a Cataguases, visitei a casa onde funcionava o estúdio de Humberto Mauro, o primeiro grande cineasta brasileiro. A casa estava fechada e meio abandonada, a piscina vazia vigiada por um imenso sapo ornamental. É evidente que com um pouco de esforço, até exibindo filmes de Humberto Mauro, aquilo poderia funcionar bem. Como funciona e é atraente o Museu Mazzaropi, em Taubaté.

Talvez esteja aí também uma diferença de peso. Museus dirigidos por fundações privadas têm mais chance no universo da decadente política brasileira.

Um dos melhores do País, entre todos, é o Instituto Ricardo Brennand, no Recife, construído por um empresário pernambucano. Quem quiser conhecer, por exemplo, os quadros do pintor holandês Frans Post, que imortalizou cenas do Brasil colonial, encontra por lá alternativas que perdem apenas para a coleção da própria Holanda.

O que quero dizer é isto: o processo de decadência que envolve a política nacional não é um dado absoluto. É possível resistir. E um dos elementos da resistência é a própria ideia de uma economia criativa, que estimule as pequenas cidades a encontrar sua vocação cultural e a cultuar sua memória. É uma forma de resistir até mesmo às dificuldades materiais do momento.

Será preciso, também, uma abertura para a parceria com a iniciativa privada. Esse bloqueio ideológico contribuiu para a destruição do Museu Nacional.

No passado, o Banco Mundial ofereceu um generoso empréstimo, exigindo que a instituição se transformasse numa fundação privada. Proposta recusada – imaginem, a memória nacional nas mãos da iniciativa privada, e não do Estado brasileiro...

Pois agora vimos como instalações elétricas precárias eram usadas até para instalar frigobar no quarto de dom Pedro; como o prédio, nas mãos do Estado, estava se tornando um perigoso pardieiro.

Não se pode apenas crucificar o Estado e estigmatizar uma classe política que está nas cordas. Há limitações mais amplas na sociedade brasileira. Nossos ricos são menos empenhados do que, por exemplo, os norte-americanos em contribuir para essas tarefas de preservação de nossa identidade cultural.

Além disso, de um modo mais amplo, vivemos no novo mundo, numa ânsia por novidades constantes e um certo desprezo pelo que passou. Tudo o que é sólido desmancha no ar, a frase de Marx, como mostra o livro de Marshall Berman, tem um grande poder de descrição do que se passa nas Américas.

Luzia, um fóssil com 12 mil anos, não resistiu à crise brasileira. Os afrescos que sobreviveram aos últimos dias de Pompeia desapareceram.

É um momento adequado para compreendermos a gravidade da nossa situação e, sem desespero, tentar uma saída, aliás nem tentar uma saída, mas apenas prosseguir na resistência cotidiana à entropia.

Independentemente até dos políticos, os dois horizontes que ainda nos restam para animar a cultura e cultuar a memória são o poder local e a possibilidade de parceria com a iniciativa privada, entendida aqui não apenas como ricos, mas também grupos de amigos das instituições.

O projeto de salvar os museus existentes ganha um pequeno fôlego com a emoção do desastre. É preciso seguir tentando abrir novos e modestos museus no interior do Brasil.

Políticos locais não são melhores do que os nacionais. Mas a necessidade de buscar fontes de renda e emprego pode empurrá-los para soluções culturais inspiradas na economia criativa.

Como o personagem de Beckett que diz não poder continuar e continua assim mesmo, o Brasil não acabou com o incêndio na Quinta da Boa Vista. Apenas ficou mais pobre.

Sem ilusões, diante do impulso de uma cultura de massas que cria e destrói incessantemente suas banalidades estéticas, é preciso resistir. Quando forem conhecidas as condições em que os cientistas e pesquisadores estão trabalhando no Brasil para manter em pé nossa busca pelo conhecimento, ficará bem claro que a resistência existe e está mais viva do que nunca, à espera de que a Nação a descubra e a adote.

Tivemos toda a semana para chorar uma perda inestimável. Vamos lembrá-la para sempre. No entanto, é hora de honrar nossa ancestral Luzia, herdando uma fração mínima de sua resiliência.

*JORNALISTA

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