As marcas de junho

Divulgada no fim da semana, a mais recente edição da série de pesquisas comparativas sobre as opiniões, atitudes e valores em 18 países do Continente - encomendadas desde 1995 pela ONG chilena Latinobarômetro e repassadas com exclusividade à revista britânica The Economist - não traz um único resultado de que a presidente Dilma Rousseff possa se orgulhar. Significativamente, a parte brasileira do levantamento foi realizada (pelo Ibope) na segunda quinzena de junho, quando, em todo o País, as ruas estavam tomadas por protestos contra a aviltante qualidade dos serviços públicos. O estopim foram os aumentos dos preços das passagens de ônibus.

O Estado de S.Paulo

05 Novembro 2013 | 02h08

Previsivelmente, o "despertar do gigante", como veio a ser chamada a súbita onda de manifestações, se traduziu de imediato na queda dos índices de avaliação do governo federal e do desempenho pessoal da presidente, sobretudo entre os jovens. Desde então, ela recuperou parte das perdas. Os números, no entanto, desmentiram as profecias do marqueteiro do Planalto, João Santana, para quem Dilma voltaria a navegar em céu de brigadeiro antes que novembro chegasse. O quadro é de estagnação. Depois de ter afundado a 31%, ou 24 pontos abaixo dos 55% de aprovação de que o governo ainda desfrutava, o índice se estabilizou a partir de agosto - imune, portanto, à roda viva de viagens, discursos, lançamentos e inaugurações a que a presidente se entregou.

Dilma, é sabido, nunca emitiu luz própria que explicasse as alturas a que chegou a sua popularidade antes que a elevação dos preços dos alimentos, no primeiro semestre do ano, começasse a empurrá-la para baixo. Ela basicamente refletia a ofuscante luminosidade do padrinho Luiz Inácio Lula da Silva, com seus 85% de aprovação, a que acrescentou uns tantos watts no primeiro ano do seu mandato, ao assumir o papel de faxineira dos malfeitos de sua equipe. Não a ponto de desalojar o mentor da liderança constante nas pesquisas de intenção de voto para 2014. O espetáculo ficou em cartaz por pouco tempo, enquanto assomava, com crescente nitidez, a negação dos seus alegados atributos gerenciais. A pesquisa do Latinobarômetro captou, por mais de um ângulo, o apagão da presidente.

O instituto manda perguntar sistematicamente aos latino-americanos (20 mil foram ouvidos este ano) qual o seu grau de satisfação com o modo pelo qual a democracia funciona nos seus respectivos países. Os resultados tendem a exprimir, menos do que juízos abstratos sobre o sistema democrático, o que as pessoas acham da aptidão dos governantes de turno em responder às demandas do interesse coletivo, como prometeram para se eleger. Sob Dilma, são pouco mais de 20% os brasileiros que se declaram "muito" ou "algo satisfeitos" com o funcionamento da democracia. Eram 40% quando assumiu. Mais: em 2011, com aprovação de 67%, Dilma era a segunda líder regional mais popular. Hoje, com 56%, caiu para a sétima posição.

O governo do "Brasil para todos" é um fracasso de bilheteria. Não chegam a 30% os entrevistados para os quais o País é de fato governado em benefício de todos. (Pior do que o País, nesse quesito, só a Costa Rica, Honduras e Paraguai. Já o Uruguai lidera folgadamente o ranking, com 80%.) Uma segunda e talvez ainda mais negativa revelação sobre o governo petista está na percepção dos entrevistados acerca do progresso nacional. No primeiro ano da gestão Dilma, a maioria absoluta da população (52%) achava que o Brasil progredia. Atualmente, a mesma opinião é compartilhada somente por 33%. Não se imagine que o País espelha um pessimismo majoritário quanto ao progresso na América Latina. Se espelhasse, não teria caído da terceira para a décima primeira posição nesse quesito no âmbito regional.

Seria prematuro inferir daí que as chances de Dilma se reeleger ficaram ameaçadas. As sondagens ainda a apontam como favorita (com margem menor, é verdade, se os seus adversários forem José Serra e Marina Silva, seus rivais em 2010). Mas os dados indicam que é mais difícil para ela agregar votos no Sudeste e nas capitais; daí a prioridade da mal disfarçada campanha a que já se dedica para consolidar a sua aprovação no Nordeste e no interior.

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