As mesmas drogas, 25 anos mais tarde

Reler textos antigos, escritos há um quarto de século, pode ser melancólico, dar a sensação de que essencialmente nada mudou, a não ser talvez os protagonistas. É o que acontece neste momento, quando o autor destas linhas se depara com artigos desse tempo. Principalmente um escrito em 1989 para o Jornal da Universidade (Federal de Goiás), a propósito de drogas - tema que atualmente ocupa, a cada dia, páginas e páginas dos jornais e grande parte do noticiário de televisão.

Washington Novaes*, O Estado de S.Paulo

25 Abril 2014 | 02h05

Um texto que teve como título As drogas deste mundo comentava as ameaças ao poder explicitadas pelo cartel de Medellín, até mesmo insinuações entre candidatos à Presidência da República no horário eleitoral. E perguntava: "Como discutir as drogas sem discutir a natureza do nosso processo civilizatório? Essa é a questão real - o próprio processo civilizatório".

Segue, então, o texto: "Em 1968, os jovens do Ocidente puseram em questão as instituições e o poder. A vaga contestadora que varreu o mundo ocidental acabou, afinal, contida, em alguns lugares até com a ajuda ou a complacência de frações da própria esquerda. E o que sobrou foi a absorção do que havia de mais palatável ou comercializável na onda ocidental - a roupa, o cabelo, a música, a liberação sexual e pouco mais. Vinte anos depois, é o bloco socialista que enfrenta o seu 1968, com certo retardo, mas com características semelhantes às da vaga ocidental, de contestação das instituições e do poder em nome da liberdade de organização e de vida".

E continuava o texto: "Pode-se perguntar o que tem a ver um jornal de universidade em Goiás com essas questões. Pode ter muito. Porque todas as vezes que surgem essas notícias começa também um suposto debate sobre a questão das drogas. Que dá sempre em nada, fica sempre pelo meio do caminho. Porque é um falso debate. E a questão das drogas tem muito que ver com a Universidade, já que se trata de um problema social - sobre o qual a Universidade deve se deter - e porque o público principal das drogas está nos jovens, que são também o público da Universidade".

E depois: "O debate é falso, porque isola a questão das drogas. Elas são discutidas como se nada mais tivessem que ver com o conjunto da sociedade e principalmente com os seus problemas, os seus nós. Como discutir drogas, por exemplo, sem discutir outras drogas, como o fumo e o álcool? Como discutir drogas sem discutir todos os venenos nossos de cada dia, que vão dos agrotóxicos aos antidistônicos, do mercúrio dos garimpos à poluição industrial das águas e do ar? Como discutir drogas sem discutir a poluição nuclear e armamentista, o lixo radiativo, os incentivos fiscais para produzir carvão vegetal na Amazônia?".

Não era só: "Mas no Ocidente já se esboça uma nova vaga, principalmente na Europa. E esta põe em questão o processo civilizatório. Vamos poder continuar vivendo no planeta da forma atual, fazendo de conta que os recursos são inesgotáveis e podem ser eternamente distribuídos de forma injusta, predatória e desperdiçadora, que caracteriza a nossa vida de hoje? O crescimento econômico pode ser um alvo permanente ou tem limites? De que forma podem e devem ser distribuídos os recursos da Terra (hoje, os Estados Unidos, com cerca de 6% da população mundial, consomem 35% de todas as formas de energia produzidas, dos alimentos ao petróleo)? A biodiversidade do Terceiro Mundo vai continuar sustentando o crescimento do Primeiro Mundo e os seus altos padrões de consumo? O projeto Grande Carajás vai devastar daqui a pouco 12 mil quilômetros quadrados por ano para alimentar as siderúrgicas e usinas de ferro-ligas que abastecerão o Primeiro Mundo de produtos baratos, evitando ao mesmo tempo que os habitantes de lá sejam obrigados a respirar poluição e abrigar lixo? As grandes hidrelétricas vão continuar inundando milhares de quilômetros quadrados da Amazônia para fornecer energia elétrica subsidiada aos grandes produtores de alumínio? Ou vamos ter que repensar tudo?".

Hoje, 2014, poder-se-ia repetir tudo, com exceção dos incentivos fiscais para o desmatamento destinado a abastecer os fornos de siderúrgicas e usinas de ferro-ligas, que venderiam tudo barato para o Primeiro Mundo - deixando os ônus aqui. O fim desses incentivos específicos custou a demissão do então titular do Meio Ambiente, o saudoso José Lutzenberger, por exigência de um ministro que chefiava o lobby das madeireiras. Mas incentivos fiscais na Amazônia continuam a proliferar, contribuindo para vários problemas graves ou para a falta de soluções para alguns deles.

De qualquer forma, o texto de 1989 terminava citando exposição do professor Eduardo Viola (hoje na Universidade de Brasília), que alinhara os pontos que considerava básicos para a discussão dos problemas: "1) A fome crônica de um terço da humanidade e a superpopulação; 2) o armamentismo e a capacidade de 'overkill' das grandes potências; 3) o processo generalizado de envenenamento do ar, da água e das cadeias alimentares; 4) o chamado efeito estufa, o aumento da temperatura no planeta e em função do acúmulo de dióxido de carbono e outros gases na atmosfera (com a possível influência no derretimento das calotas polares; e 5) a extinção da biodiversidade no Terceiro Mundo".

E o artigo encerrava afirmando que "é por aí que a discussão tem de começar. Por essas drogas. Se for levada a sério, chegaremos às outras drogas. Pra valer".

De fato, em 1989 estavam presentes também os linchamentos, apenas com mudanças de ênfase, porque muitas das vítimas de então hoje poderiam estar entre os "emergentes sociais". E começava a estar presente a descrença em transformações a partir de reformas políticas. Ou seja, um quarto de século depois, está na hora de colocar tudo em cima da mesa, reconformar a discussão. E chegar a novas propostas de mudanças.

*Washington Novaes é jornalista. E-mail: wlrnovaes@uol.com.br.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.