As mudanças da GM

Depois de montar os últimos Meriva e Zafira, que saíram de linha, a General Motors (GM) determinou aos 7,5 mil empregados da fábrica de São José dos Campos que ficassem em casa. Seguindo a chamada estratégia de relocalização industrial, a empresa quer reduzir sua presença no Vale do Paraíba para investir em São Caetano, onde produzirá o modelo que substituirá a Meriva e a Zafira.

O Estado de S.Paulo

30 Julho 2012 | 03h07

Entre as fábricas da GM no Brasil, a de São José dos Campos é a que apresenta maior custo de produção. Dos 7,5 mil funcionários dessa fábrica, 1,5 mil poderá ser demitido nas próximas semanas. A situação dos demais funcionários está sendo negociada com o Sindicato dos Metalúrgicos. As reuniões já realizadas terminaram sem acordo e a próxima será no dia 4 de agosto.

A GM está fazendo uma movimentação oposta à da década de 1980, quando transferiu unidades do ABC para o Vale do Paraíba. O que a levou a tomar essa medida, na época, foram as exigências salariais absurdas dos metalúrgicos do ABC e as greves apoiadas pela CUT. Com o aumento dos custos de produção no ABC, a GM e as demais montadoras instalaram fábricas em cidades onde os salários eram mais baixos - o que resultou no fechamento de milhares de postos de trabalho no ABC. Agora, a GM faz o caminho inverso, pois, face à radicalização do Sindicato dos Metalúrgicos de São José, que representa 42 mil trabalhadores e é controlado pelo PSTU, o Vale do Paraíba, do ponto de vista sindical, é hoje o que foi São Bernardo há trinta anos. Em compensação, os metalúrgicos do ABC aprenderam a lição, tornando-se mais realistas.

Para os dirigentes dos metalúrgicos de São José dos Campos, o esvaziamento do complexo industrial da GM na cidade é "locaute". E para o Conlutas, a central sindical controlada pelo PSTU e à qual o Sindicato dos Metalúrgicos de São José é vinculado, a GM não poderia fechar unidades na cidade por ter sido beneficiada com a isenção do IPI para retomar as vendas, que tinham sido afetadas pelas restrições de crédito.

Na realidade, o fechamento de linhas de produção, por causa do avanço da tecnologia e de constantes embates sindicais, não configura locaute. Além disso, a GM também não tem a obrigação de manter empregos em São José dos Campos, só por estar usufruindo de benefícios fiscais. O que ela negociou, em troca da isenção do IPI, foi manter o atual número de postos de trabalho, independentemente dos locais onde possam estar instalados.

O que está ocorrendo com a GM é rotina no mundo inteiro. Em busca de vantagens comparativas, a Renault e a Opel fecharam fábricas na França e na Alemanha e as transferiram para o Leste Europeu, onde o nível de escolaridade é alto e os salários são baixos. Hoje a Eslováquia abriga seis montadoras, produzindo 1 milhão de veículos por ano. Na França, o salário mínimo do setor industrial é de 1.286 - na Eslováquia, é de 117.

Por obedecerem às diretrizes de um minúsculo partido radical, os líderes sindicais dos metalúrgicos do Vale do Paraíba arremetem contra a lógica da economia e das relações trabalhistas modernas. No capitalismo, as empresas têm de dar lucro aos acionistas, o que as obriga a se modernizarem tecnologicamente, para se manter competitivas. Para assegurar sua aposentadoria, os trabalhadores constituem fundos de pensão, que se tornam acionistas dessas empresas e usam os seus lucros para pagar os pecúlios dos mutuários. Por exemplo, a Previ e a Petros têm 175 mil e 128 mil participantes e ativos de R$ 116,7 bilhões e R$ 39,2 bilhões, respectivamente.

Por cegueira ideológica, o Conlutas e o Sindicato dos Metalúrgicos de São José dos Campos não percebem que, ao fazerem exigências salariais absurdas, encarecem os custos das empresas. E, quando elas são obrigadas a se transferir para onde possam produzir a custos mais baixos, como vem ocorrendo com a GM, quem perde são os trabalhadores que almejam representar. Não foi por acaso que, apesar de o PSTU ter vencido a última eleição para o Sindicato, a chapa de oposição foi a que teve mais voto entre os trabalhadores da GM.

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