As novas vítimas do terror

Tudo, além da escolha das vítimas, foi friamente calculado para disseminar o medo e provocar pânico: a explosão provocada por um homem-bomba ocorreu fora da Arena, capaz de receber 21 mil pessoas, logo que acabou o show e os fãs da cantora, muitos acompanhados dos pais, começavam a se retirar

O Estado de S.Paulo

24 Maio 2017 | 03h01

O terrorismo atacou novamente no Reino Unido – pela segunda vez este ano – e de uma forma particularmente cruel, se é que se pode estabelecer nestes casos alguma gradação: o atentado na noite de segunda-feira, em Manchester, no norte da Inglaterra, cuja autoria foi logo assumida pelo Estado Islâmico, teve como alvo crianças e adolescentes que assistiam a um show da cantora norte-americana Ariana Grande. E deixou um saldo de 22 mortos e 59 feridos, que chocou o país e provocou uma onda de solidariedade em todo o mundo, a começar pela Europa, há muito transformada no alvo principal do terror.

Tudo, além da escolha das vítimas, foi friamente calculado para disseminar o medo e provocar pânico: a explosão provocada por um homem-bomba ocorreu fora da Arena, capaz de receber 21 mil pessoas, logo que acabou o show e os fãs da cantora, muitos acompanhados dos pais, começavam a se retirar. Assustados e amedrontados pela explosão, correram desordenadamente em direção às saídas.

Como disse uma das jovens espectadoras: “Ouvimos uma explosão que parecia uma bomba e fez toda a gente entrar em pânico e tentar sair do recinto”. Muitos foram pisoteados, num segundo efeito da bomba. Outros se perderam de seus pais e amigos e foram ajudados e abrigados por moradores da vizinhança e pela polícia.

Com essa ação, o outro objetivo dos terroristas que comandaram ou apenas apoiaram a ação de um lobo solitário por eles inspirados – o que a investigação deve esclarecer – foi certamente atingir a população do Reino Unido num ponto sensível, o da segurança de seus filhos menores. Uma ameaça que será sentida muito além de suas fronteiras, em todos os países que se tornaram alvos do terror nos últimos anos.

Mais uma vez se comprova a assustadora facilidade com que mesmo um único terrorista pode causar uma grande tragédia. Se em novembro de 2015 falhou a tentativa de um grupo bem articulado de explodir uma bomba em pleno Stade de France lotado, na série de atentados que deixaram 130 mortos em Paris, desta vez bastou um lobo solitário em Manchester.

Essa tática rudimentar, mas terrivelmente eficiente – que exige apenas disposição fanática para o sacrifício e meios simples e acessíveis a qualquer um –, já havia sido empregada várias vezes. Em Manchester mudou somente o alvo: crianças e adolescentes. Em Nice, no sul da França, em 2016, na data nacional do país, 14 de julho, um caminhão dirigido por terrorista avançou sobre a multidão que comemorava e matou 85 pessoas. A cena se repetiu em Berlim, em dezembro do mesmo ano, num mercado de produtos de Natal, com 12 mortos. E em Londres, em março deste ano, apenas dois meses antes da tragédia de Manchester, um terrorista dirigindo um carro comum avançou sobre os pedestres na Ponte Westminster e matou 4 pessoas.

O Reino Unido orgulha-se, e com razão, de ter um dos melhores serviços de informação do mundo e uma polícia também altamente eficiente. Mesmo assim, não consegue frustrar todos os atentados terroristas. Os lobos solitários são particularmente perigosos, em vista da grande dificuldade de descobri-los e neutralizá-los antes que passem à ação. Como no velho dito, é o mesmo que procurar agulha no palheiro.

O combate ao terrorismo em sua nova versão exige um trabalho paciente e minucioso, que depende muito mais de informação do que de força bruta. E também da cooperação estreita entre os serviços de informação tanto dos países diretamente atingidos por ele como por aqueles pelos quais circulam os terroristas e seus doutrinadores. Ela já existe, mas precisa ser ainda mais aprofundada.

Nesse sentido, é de esperar que o processo, já iniciado, de saída do Reino Unido da União Europeia não afete a colaboração entre aqueles serviços, pois isso deve interessar igualmente às duas partes.

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