As profundezas da improdutividade

Quando fui trabalhar com políticas de formação profissional na OIT (Genebra), tive de substituir minhas ferramentas de 110 volts pelas de 220. Perguntei a vários colegas onde poderia comprar uma furadeira de impacto, reversível e com velocidade variável. Obtive duas classes de respostas. A primeira, do tipo: "O quê? Furadeira?". Outros viram uma Bosch, ótima, em oferta na loja Migros. Os connoisseurs do grupo eram engenheiros. Não por acaso, os que nada sabiam eram economistas.

Claudio de Moura Castro, O Estado de S.Paulo

12 Março 2015 | 02h04

Ora, os que escrevem sobre produtividade no Brasil tendem a ser economistas. Portanto, falam de taxa de câmbio, alíquotas, custo da informação e muitos outros de seus inventos (falo com impunidade, pois sou um deles). Do mundo real, nem um pio (uma newsletter recente reproduz 12 artigos sobre produtividade, nenhum fala do processo de trabalho).

Não subestimo os argumentos macroeconômicos. Contudo creio que nossa improdutividade nasce nas oficinas e nos escritórios. Para retomar o gancho anterior, começa pela mão de gente que não sabe usar a furadeira e outros mil artefatos, físicos ou digitais. Ali nasce o trabalho mal feito.

Portanto, para entender é preciso descer lá embaixo, ao chão da fábrica. Obviamente, há um fosso gigantesco entre as empresas grandes e o varejinho das fabriquetas e empresas de construção. Não vamos confundir as coisas. Mas contribuem para a baixa produtividade medida pelos economistas.

Fui comprar uma barra de ferro de 38 mm por 4 mm. Indaguei sobre a bitola de outra parecida. Sem pejos, o vendedor disse que não sabia medir. Como estou construindo uma casa, os operários são meu laboratório. Ganham pouco e produzem pouquíssimo, num círculo vicioso.

O capítulo das ferramentas inexistentes ou inapropriadas é patético. Com a terceirização dos terceirizados, quem as possui? O peão nada tem. O construtor manda comprar na esquina. Pela sua experiência, sabe que serão maltratadas, quebradas, roubadas ou perdidas. Daí que é temerário comprá-las de boa qualidade. E com a ferramenta errada sai o trabalho errado.

O bombeiro corta o cano plástico apoiando-o na barriga e com uma lâmina de serra, sem arco. O gesseiro usa lâmina igual, também sem cabo. Na hora do serrote, em vez de morsa, é a coxa que serve de apoio. O cidadão que punha os espelhos das fechaduras ficou muito surpreendido quando descrevi o ritual de afiar um formão. Não admira que o dele estivesse cego. O gesseiro suja tudo e o pintor deixa a tinta pingar. Se cobrissem tudo com cuidado, economizariam trabalho. O gesseiro ignora o local dos pontos elétricos, obrigando o eletricista a adivinhar.

O desperdício de material de construção é pavoroso - estima-se em 30%. Com a madeirama abandonada, em minutos se improvisariam mesas de trabalho e bancos. No entanto, o conteúdo das caixas de ferramentas e as ferragens miúdas são despejados no chão e lá ficam. Causam tropeços e é difícil achar o que quer que seja. Catar parafuso que caiu no chão dá trabalho, melhor pegar um novo na caixa.

Equipamentos de segurança? No varejo da construção civil, nem pensar. E tome acidentes!

Planejamento da obra? O horizonte de tempo é de uns poucos dias. Ou de horas. Acabou o parafuso? Leve R$ 20 para comprar no depósito próximo. A peãozada tanto pode aparecer como alegar enterro ou batizado. Os fornecedores tampouco mantêm os prazos prometidos. Os vidros Blindex, prometidos em dez dias, entre erros de medida e o medo de altura dos instaladores, já se vão três meses.

Os manuais de instalação de telhas metálicas indicam que na emenda das telhas seja usada uma fita gomada dos dois lados. Na obra ninguém jamais ouviu falar da tal fita. Surpresa, o telhado vazou! Improdutividade é refazer tudo. Se a telha precisa ser cortada, o lado do corte deve ser o que fica protegido da chuva. De outra forma a aresta não anodizada vai enferrujar. Adianta recomendar?

Lanço farpas na indústria que abastece a obra. Pousar uma viga de aço numa coluna de concreto é uma prática recorrente. No entanto, a ferragem que faz essa conexão precisa ser desenhada pelo projetista e encomendada de um serralheiro. Por que não está pronta nas lojas?

Cada um desses mil exemplos é uma bicadinha na produtividade. E, de grão em grão, o somatório é catastrófico. Por metro quadrado, a construção brasileira equivale em custo à americana. E o salário médio da deles é dez vezes mais. Qual a saída? Em primeiro lugar, não há poção mágica única que vá resolver. Trata-se de um conjunto complexo de providências. Simplismo é fatal.

Ensinar a fazer é o óbvio. Então a dinheirama do Pronatec seria a solução? Não, a força bruta não resolve. O maior desafio da formação é o ato delicado de identificar e preparar o candidato certo para um emprego que existe. O programa ignora as dificuldades de obter a pontaria desejada e de ajustar os cursos às necessidades da ocupação.

Em muitas ocupações simples, ensinar as operações pode ser rápido. Mas os valores de persistência, responsabilidade, qualidade, pontualidade e produtividade não se aprendem da noite para o dia. E como mostram as pesquisas, esses traços comportamentais são tão importantes quanto o gesto profissional.

É árduo montar programas atraentes para esta mão de obra dispersa, nômade e operando sem previsão de continuidade. O Sistema S sabe preparar profissionais competentes. Mas como as empresas do setor informal não contribuem para o seu financiamento, reluta em chafurdar neste pântano, onde falham as soluções clássicas.

Mas uma coisa é certa: já que a escola falhou, pelo menos é preciso ensinar a usar números, redigir corretamente, ler desenhos técnicos e medir. Por outro lado, não há mão de obra produtiva com chefes que têm a cabeça atrasada. A empresa pequena espelha o dono. Se ele não tiver a visão correta do que é preciso fazer para aumentar a produtividade, nada feito. E antes de tudo precisam ser obsessivos quanto à necessidade de conseguir mais com menos recursos. Infelizmente, não é assim.

*Claudio de Moura Castro é doutor em Economia e pesquisador em Educação 

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