As provisões dos bancos

Entre os primeiros semestres de 2008 e 2009, os bancos privados aumentaram em 58,4% suas provisões contra devedores duvidosos e os bancos públicos, em 34,2%, segundo informações do Banco Central (BC). Numa fase de crise, é normal esse aumento de reservas - que são uma forma de os bancos protegerem o patrimônio contra o risco de calotes -, mas chamam a atenção as grandes diferenças entre as políticas dos bancos públicos e privados para elas.São vultosos os números: em apenas um semestre, aumentaram em R$ 18,8 bilhões as provisões lançadas nos balanços, mais do que o lucro líquido dos grandes bancos, no período, de R$ 14,3 bilhões, conforme os demonstrativos das companhias abertas pesquisados pela consultoria Economática.No semestre passado, o Itaú-Unibanco aumentou as provisões em R$ 8,1 bilhões, 57,5% mais do que no primeiro semestre do ano passado; o Bradesco, em R$ 7,3 bilhões (+118%); e o Santander, em R$ 4,9 bilhões (+57,9%).O Itaú atribuiu o aumento das provisões ao "cenário econômico adverso, associado à crise financeira internacional, que contribuiu para a elevação da inadimplência, afetando a qualidade do risco das carteiras de pessoas físicas e jurídicas". Para o Bradesco, foi a necessidade de "suportar eventuais cenários cíclicos, com aumento dos índices de inadimplência e/ou alterações no perfil de risco da carteira de crédito", afetando a capacidade de pagamento dos clientes.Quaisquer que sejam os motivos apresentados, quanto maiores as provisões, menor o lucro e, portanto, menores os impostos a recolher. Historicamente, muitos bancos preferiram lançar o maior montante possível na conta de provisões, adiando o recolhimento de tributos - e este procedimento é perfeitamente legal.Autoridades federais deram outra explicação: o aumento das provisões foi uma forma de os bancos não exibirem todos os elevados lucros obtidos em grandes operações, numa fase de recessão.A conjuntura difícil é, de fato, um fator capaz de justificar o crescimento das provisões. A diferença é que, desta vez, isto ocorreu simultaneamente com um aumento ínfimo dos empréstimos, de apenas 1,4%, nos bancos privados, entre os primeiros semestres de 2008 e 2009. Nos bancos públicos, ao contrário, os empréstimos aumentaram 10,9% na mesma base de comparação. E entre dezembro de 2008 e junho de 2009, a participação somada do Banco do Brasil, da Caixa Econômica Federal (CEF) e do Banco do Nordeste no mercado de crédito passou de 24% para 28,1%, segundo o BC.A disparidade de políticas dos bancos públicos e privados quanto às provisões suscita dúvidas em relação à qualidade dos créditos. No passado, a inadimplência elevada levou os bancos estaduais à liquidação e os bancos federais, ao prejuízo. Há agora o risco da repetição do problema?A resposta cabal é difícil, pois só os gestores dos bancos conhecem, de fato, a qualidade efetiva dos créditos que concederam. É quase impossível, assim, avaliar se os aumentos das provisões de uma instituição federal, a CEF, de R$ 1,26 bilhão, no quarto trimestre de 2008, e de mais R$ 1,54 bilhão, no trimestre passado, foram compatíveis com a aceleração dos empréstimos e a ampliação dos riscos. Ainda que inferiores aos de bancos privados, esses acréscimos não foram irrisórios. Um especialista em bancos, Armando Castelar Pinheiro, afirmou que a melhor maneira de dar mais transparência aos balanços - e assim conhecer melhor o nível de inadimplência - é abrir o capital, como sugere para a Caixa Econômica Federal. "Se a Caixa e o Banco do Brasil cresceram no vácuo dos bancos privados, eles entraram num mercado de risco maior", admitiu Castelar. E isto poderá resultar em maiores prejuízos. Mas por ora, acrescentou, não há evidências desse aumento do risco.Nos bancos que aumentaram significativamente as provisões isto indica cautela nas concessões de crédito. Não é bom para a retomada do crescimento, mas o custo de uma deterioração da qualidade dos créditos bancários seria enorme, como mostrou a experiência internacional recente.

, O Estadao de S.Paulo

20 de agosto de 2009 | 00h00

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