As sanções árabes à Síria

Em 1979, numa decisão inédita, a Liga Árabe suspendeu o Egito por ter procurado Israel para fazer a paz. A suspensão durou dez anos. Em fevereiro último, a entidade aplicou a mesma pena à Líbia pelas centenas de vítimas civis caídas nos primeiros protestos contra o regime de Muamar Kadafi. No mês seguinte, apoiou o ato do Conselho de Segurança da ONU que estabelecia uma zona de exclusão aérea no país norte-africano. No domingo passado, invocando desta vez a necessidade de prevenir uma nova intervenção militar estrangeira na região, a Liga tomou a iniciativa de impor à Síria, que havia sido suspensa semanas antes, um duro pacote de sanções econômicas e diplomáticas.

O Estado de S.Paulo

29 Novembro 2011 | 03h07

Foi a resposta, também sem precedentes, à recusa do ditador Bashar Assad de sustar a matança sistemática de ativistas pró-democracia, libertar parte considerável dos 10 mil presos políticos e permitir o ingresso de observadores do organismo, como previa o plano de pacificação aprovado pela Liga Árabe, com o qual ele dissera concordar. A Síria está convulsionada há oito meses. Mais de 3.500 pessoas já morreram nos choques com as forças de segurança do regime e nos ataques do Exército aos redutos da insurgência, como as cidades de Homs, Hama e Deraa, onde ela irrompeu. Estima-se em mais de 5 mil o total de refugiados na Turquia.

As sanções - que incluem o congelamento de ativos do governo sírio nos países do bloco, a suspensão das transações financeiras e comerciais, excluídas as vendas de bens de consumo popular, e a proibição do ingresso de hierarcas sírios nos territórios dos países-membros da Liga - são uma tentativa de levar as elites econômicas de Damasco e Aleppo, o segundo centro do país, a convencer o ditador do qual são aliadas a fazer concessões aos opositores. Nestes oito meses de confrontos, Assad se limitou a mencionar vagos projetos de abertura política. Confiando nas suas bases etnorreligosas, que agregam a seita islâmica alauita à minoria cristã - temerosas da ascensão ao poder dos rivais sunitas ou, pior ainda, dos fundamentalistas -, ele insiste em descrever os antagonistas como "bandos de terroristas armados, a serviço de interesses estrangeiros".

Mas a plutocracia dos negócios, credora dos seus sócios do clã Assad que controla o país há quatro décadas, só sentirá no bolso motivos para pressionar Bashar se as sanções forem efetivamente aplicadas. Dois dos 22 membros da Liga, vizinhos da Síria, que figuram entre os seus principais parceiros comerciais, indicaram que não devem fazê-lo. O maior deles, o Iraque, se absteve na votação de anteontem, lembrando o que sofreu sob as medidas punitivas do Ocidente contra o então ditador Saddam Hussein. E o Líbano, onde a influência síria é crucial, não apenas votou contra as sanções, como se "dissociou" da resolução aprovada.

Assad também conta com o Irã, que tem nele o seu único aliado no mundo árabe, e com a Rússia, firmemente estabelecida no país desde os tempos da União Soviética, para atenuar os efeitos das sanções o suficiente para manter a coalizão de lealdades e conveniências que o sustenta. Aliás, no que depender da Rússia e da China, não há hipótese de o Conselho de Segurança da ONU atender ao apelo da Liga Árabe e impor também uma bateria de punições. (Os Estados Unidos e a União Europeia já o fizeram, meses atrás.) Tanto assim que o foro preferido pelos governos solidários com o movimento civil na Síria é outro: o Conselho de Direitos Humanos da ONU.

Na sexta-feira, o órgão sediado em Genebra discutirá os crimes cometidos por Bashar contra o seu povo com base nas conclusões de uma investigação conduzida a distância pelo cientista político brasileiro Paulo Sérgio Pinheiro, cuja equipe foi proibida de entrar na Síria. Mas, seja no Oriente Médio, seja no Ocidente, não se divisa o tipping point do conflito no país - a conjunção de fatos que privarão o ditador dos recursos de poder graças aos quais, apesar do isolamento internacional, ele tem conseguido resistir. A insurgência paga um preço cada vez mais alto. Este novembro tem sido o pior mês para o movimento. Só no domingo, enquanto a Liga Árabe se reunia no Cairo, foram mais 32 mortos.

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