As torcidas bandidas

Mais uma vez uma partida de futebol - a disputada quarta-feira, no Estádio do Pacaembu, entre Corinthians e Vasco da Gama - foi pretexto para que as torcidas organizadas promovessem verdadeira batalha nas ruas da capital. Sua selvageria, estranha ao esporte e aos verdadeiros torcedores, deixou o saldo de um morto, sete feridos e um ônibus incendiado, sem falar no pânico que semeou entre os moradores do Pacaembu e os que passavam pelas proximidades dos locais dos incidentes.O primeiro e mais violento confronto ocorreu antes do jogo, por volta das 21 horas, perto da Ponte das Bandeiras, na Marginal do Tietê, quando um comboio de 15 ônibus que transportava vascaínos para o Pacaembu cruzou com um ônibus e quatro carros ocupados por corintianos. Depois de troca de insultos, os dois grupos, armados com barras de ferro, facas e pedras, iniciaram uma batalha que os 30 policiais militares (PMs) que escoltavam o comboio dos vascaínos não conseguiram evitar. Um homem morreu e seu corpo, com marcas de pauladas e facadas, foi encontrado pouco depois, nas proximidades, pelos policiais. Embora estivesse sem camisa e documentos, sendo portanto impossível identificá-lo de imediato e afirmar a que grupo pertencia, logo se espalhou a notícia de que era corintiano, o que bastou para acirrar ainda mais os ânimos dos integrantes da torcida organizada do time paulista - tanto os que foram dispersados pela PM, depois da prisão de cerca de 30 corintianos e vascaínos como outros que estavam a caminho do estádio. A vingança não demorou. Durante o segundo tempo da partida, um ônibus pertencente aos corintianos, felizmente vazio, estacionado nas imediações do Pacaembu, foi incendiado por enfurecidos vascaínos que não tinham conseguido entrar no estádio. A pronta intervenção do Corpo de Bombeiros evitou que o fogo atingisse outros veículos.O problema das torcidas organizadas vem de longe. Confrontos mais graves que esse já aconteceram. Em outubro de 2005, três jovens morreram em menos de 24 horas em brigas de torcidas na capital. Muitos outros casos, que deixaram mortos e feridos, poderiam ser citados. O confronto de quarta-feira não constitui, pois, nenhuma novidade. Daí a pergunta: até quando as autoridades insistirão em enfrentar esse problema com medidas que oscilam entre o paliativo e o extravagante?De nada adianta, como se acaba de ver, colocar 30 policiais para escoltar comboio de ônibus de uma torcida. Eles podem fazer muito pouco, quase nada, para impedir o confronto de grupos numerosos e enfurecidos. De nada adianta, também, apelar para propostas estapafúrdias como a feita recentemente pelo governo, de exigir carteirinhas de identificação dos torcedores que vão a estádios. Uma medida de difícil aplicação e principalmente inútil, porque cada vez mais os confrontos entre as torcidas se dão fora dos estádios. Não foi por acaso que, há quase 20 anos, o governo britânico cogitou da adoção dessas carteirinhas e logo desistiu. Quando os nossos governantes estiverem mesmo dispostos a enfrentar para valer esse problema, terão muito a aprender com experiência da Grã-Bretanha, que por muito tempo sofreu com as tragédias provocadas pelos seus violentos "hooligans". Os britânicos conseguiram diminuir bastante os conflitos nos estádios e fora deles, com providências como a de identificar os elementos mais violentos nas torcidas organizadas e proibir sua presença nos estádios. Nos dias de jogo, eles têm de comparecer a uma delegacia e lá permanecer pelo tempo de duração da partida e de dispersão das torcidas.Eles recebem o tratamento que merecem - o de delinquentes que têm de ser segregados, ainda que só em determinados dias. É de uma ação policial eficiente e de medidas duras e objetivas como essas que precisamos. As torcidas organizadas - a esta altura, que dúvida ainda pode existir sobre isso? - possuem "células" de crime organizado que como tal têm de ser tratadas. Elas nada têm a ver com o esporte e tudo a ver com o crime. Só as autoridades ainda não se deram - ou fingem que não se deram - conta disso.

, O Estadao de S.Paulo

05 de junho de 2009 | 00h00

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