Assédio e sedução

Há homens que, de fato, não prestam, mas não se podem tomar as exceções como regra

Pedro Cavalcanti*, O Estado de S. Paulo

21 Novembro 2018 | 03h00

Boa parte do ano que se finda foi animada por denúncias sobre casos de assédio e estupro. Mais violentas na Europa e nos EUA, disputaram espaço num noticiário especialmente congestionado pelas dificuldades do Brexit, das maluquices do presidente Donald Trump, da ascensão da extrema direita, da tragédia dos refugiados vindos do Oriente Médio.

O tema do assédio tomou conta não só das delegacias de polícia e dos tribunais, mas transbordou para as colunas políticas e sociais focadas especialmente no mundo dos espetáculos. De saída, denúncias publicadas por jornais como The New York Times e pela revista The New Yorker atingiram nomes poderosos da indústria do espetáculo, como o produtor Harvey Weinstein, o ator Kevin Spacey e, mais recentemente, Bill Cosby, condenado a vários anos de prisão.

Na França, pátria dos abaixo-assinados e das controvérsias, a atriz Catherine Deneuve encabeçou manifesto contra o que o texto chama de "denuncismo" de assédios sexuais pós-Harvey Weinstein. O manifesto, publicado no jornal Le Monde, afirma que homens devem ser "livres para abordar mulheres".

Passaram-se semanas e meses e a controvérsia não amaina, pois ninguém parece capaz de traçar uma linha divisória entre o indesejável assédio e o jogo da sedução, velho como o mundo.

Começando pela abordagem. Se a abordagem física nos transportes públicos está condenada ao opróbrio e ao fracasso, assim como o uso de palavras grosseiras, há abordagens que lembram os galanteios de antigamente e não costumam ofender ninguém. "Olha a nora que minha mãe pediu aos céus", dizem os brasileiros. E não estão sozinhos. Turistas brasileiras em Buenos Aires já ouviram sua passagem saudada por comentários de suave inocência como "aconteceu um terremoto nos céus, os anjos caíram e estão caminhando pela Terra".

Na Itália a abordagem nas ruas é tão frequente que causa às vezes aborrecimento. Já nos países nórdicos, a ausência total de assobios, olhares ou gracejos de qualquer espécie produz efeito contrário. Várias brasileiras em viagem têm a impressão de ter ficado feias ou invisíveis.

Além de questões culturais, há restrições de moralidade vindas de onde menos se espera. O médico Drauzio Varella costumava cumprimentar suas pacientes nas prisões femininas com um beijo no rosto. As próprias prisioneiras, no entanto, pediram que ele se abstivesse, pois haviam sido avisadas pelo PCC de que seriam castigadas se admitissem qualquer manifestação de afeto vinda de alguém ligado à administração carcerária.

A distinção entre assédio e sedução não é nova e serviu de tema para obras literárias que resistem à passagem dos anos. Uma das mais conhecidas é o conto Ce Cochon de Morin (Esse Canalha do Morin). Publicado pelo escritor francês Guy de Maupassant em 1882, a ação começa durante uma viagem de trem noturno entre as cidades de Paris e La Rochelle. Morin, pequeno lojista que retorna de uma visita de negócios à capital francesa, encontra-se no mesmo vagão que uma moça encantadora. Resolve tentar a sorte com a desconhecida, interpretando os sorrisos de simples cortesia de sua companheira de viagem como convites a maiores intimidades.

Começa a pensar sobre tudo o que lhe disseram sobre a necessidade de tomar a iniciativa e se comportar como verdadeiro macho, que seria o que as mulheres esperam e desejam. Mas como nada lhe ocorre a dizer, tem um arranco de timidez pelo avesso e se precipita sobre a infeliz moça, que, alarmada, puxa o alarme e presta queixa na polícia.

Na tentativa de minorar o escândalo, um amigo de Morin e também narrador da história é destacado para apresentar desculpas à moça em nome da cidade de La Rochelle. Assim se apresenta na casa dela, que mora em companhia de um tio. Dono de muita lábia, conquista o tio com uma conversa sobre política e seduz a moça ao ponto de levá-la para a cama na mesma noite. De volta a La Rochelle, encontra o lojista desolado pelo apelido por que passou a ser conhecido por todos: o canalha do Morin.

A história ilustra perfeitamente o contraste entre o infeliz assédio e a sedução esperada e praticada por ambos os sexos instintivamente ao redor do mundo. 

As jovens começam desde que se tornam meninas-moças. Que se recorde o Xote das Meninas, de Zé Dantas e Luiz Gonzaga, lançada em 1953 e que encanta sucessivas gerações. Em tom alegre e animado, a letra conta que "toda menina que enjoa da boneca/ é sinal que o amor já chegou no coração./ (...) De manhã cedo já tá pintada/ só vive suspirando, sonhando acordada/ (...) Não come nem estuda,/ não dorme nem quer nada".

Os pessimistas de plantão dirão talvez que todo esse encantamento e fantasia pode acabar muito mal, com gravidez na adolescência e dificuldades sem conta. Ninguém duvida, aliás, da vulnerabilidade dessas meninas-moças, já lamentada em O Desespero da Piedade, de Vinicius de Moraes: "Tende piedade, Senhor, das primeiras namoradas,/ de corpo hermético e coração patético,/ que saem à rua felizes, mas que sempre entram desgraçadas./ Que se creem vestidas, mas que em verdade vivem nuas". 

E as dificuldades estão apenas no início, pois os versos continuam: "Tende piedade da moça feia que serve na vida/ De casa, comida e roupa lavada da moça bonita/Mas tende mais piedade ainda da moça bonita/ Que o homem molesta – que o homem não presta, não presta, meu Deus!".

Efetivamente, há homens que não prestam. Mas a parte negativa e tumultuosa da relação entre os sexos, destacada por excelentes campanhas e manifestações gigantescas no Brasil contra o machismo primário de Jair Bolsonaro, peca por alguns excessos. De tanto ouvir falar em assédios nos locais de trabalho, de padrastos pedófilos, de maridos violentos, muitos poderiam tomar exceções como regra. A maioria dos padrastos, dos patrões ou dos maridos comporta-se de maneira digna. 

Quanto aos namorados, haveria muito que discutir, mas os riscos nesse caso atingem ambos os sexos. Como já foi dito em prosa e verso, "viver é muito perigoso".

*Jornalista e escritor. E-mail: pra@uol.com.br

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