Assim, taxistas perdem a razão

Motoristas de táxi, que vinham exercendo o legítimo direito de protestar contra o aplicativo Uber – acusado de oferecer serviço idêntico ao seu em condições que caracterizam concorrência desleal –, passaram a adotar um inaceitável comportamento violento. Os incidentes, que vêm se multiplicando nas grandes cidades em que o Uber está presente, e que já deixaram vários feridos e veículos danificados, exigem uma resposta do poder público.

O Estado de S. Paulo

13 Agosto 2015 | 03h00

Atritos entre os dois grupos não ocorrem apenas aqui. Eles têm sido registrados em vários países e, tal como acontece neles, é preciso que também aqui se busquem maneiras de conciliar os interesses dos taxistas e do Uber. A violência, que vem num crescendo como mostram os casos ocorridos nas últimas semanas, e que não se limita mais aos motoristas, envolvendo também os passageiros, tem de ser detida o quanto antes.

A emboscada armada por taxistas, na madrugada de sábado, para pegar um motorista do Uber ilustra bem as perigosas características que já assumiu a disputa entre eles. Morador da zona leste, aquele motorista recebeu chamado às 3h22 para pegar um cliente na Rua Santa Justina, no Itaim, como mostra reportagem do Estado. Ao chegar ao local, percebeu a presença de 20 homens em atitude hostil, certamente taxistas, que fecharam a rua quando ele tentou escapar. Ele foi xingado e seu carro, apedrejado e bastante danificado. O motorista foi colocado num táxi, que circulou por cerca de meia hora, e depois abandonado perto da Avenida Bandeirantes.

Não se tratou, como nos primeiros incidentes, de uma reação emocional, descontrolada, de taxistas irritados. Foi uma ação fria e planejada. Algo semelhante aconteceu no último dia 3 em Brasília, durante uma manifestação contra o Uber.

Os taxistas não se limitaram a expor suas posições e pedir a intervenção das autoridades, como seria normal.

Obrigaram um casal de passageiros a sair do carro do Uber que tinha contratado, sob ameaça: “Se não descer, vamos quebrar o carro”. Em seguida obrigaram o casal a pegar um táxi e o motorista do Uber a transferir para ele as malas.

Caso parecido foi registrado dias atrás em Belo Horizonte, no qual foi igualmente vítima um casal, este agredido fisicamente. A capital mineira é uma das cidades em que os incidentes violentos desse tipo têm sido mais frequentes.

A situação no Rio de Janeiro não é diferente. 

O Sindicato dos Motoristas e Trabalhadores nas Empresas de Táxi (Simtetaxis) fez questão de desvincular a categoria dessas ações violentas e prometeu colaborar com a polícia e o Departamento Municipal de Transportes (DTP), que fiscaliza os táxis. Já o presidente do Sindicato dos Taxistas Autônomos, Natalício Bezerra, repudiou a ação, mas fez questão de sustentar – contra todas as evidências – que ela não foi cometida por taxistas, mas por criminosos.

Esses são atos criminosos – tanto os de São Paulo como os das demais cidades – cometidos, sim, por taxistas, e tentar escamotear esse fato é estimular sua prática. São casos de polícia, que nada têm a ver com o legítimo direito de protestar contra o Uber, e como tal têm de ser tratados. É preciso identificar e processar os seus autores. Na parte que lhe cabe, está certa a Prefeitura, que prometeu instaurar “processo administrativo de cassação dos alvarás dos taxistas que tenham comprovadamente participado do crime”.

Os taxistas têm razões para se queixar da desigualdade de condições entre eles e o Uber, que não está sujeito às mesmas obrigações e, por isso, leva vantagem na concorrência. Mas, é claro, isso não lhes dá o direito de apelar para a violência, como vem fazendo uma parte deles.

A essa altura parece claro que o Uber veio para ficar. Cabe aos legisladores dar a ele e aos taxistas igualdade de condições para disputar os passageiros. Não pode haver privilégios. E isso deve ser feito o mais rapidamente possível.

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