Assim não se irá muito longe

Tirando as esperadas manifestações - de autoridades e dos mais diversos setores da sociedade - de condenação da violência dos black blocs que resultou na morte do cinegrafista Santiago Andrade, as demais reações a esse trágico episódio não são animadoras. Ou o alvo principal não é perfeitamente identificado ou algumas das medidas propostas são equivocadas e, por outro lado, o bando de criminosos que insiste em se disfarçar de manifestantes não dá nenhuma demonstração de estar disposto a rever seu comportamento. Ao contrário, mostra-se tão ou mais aguerrido do que antes.

O Estado de S.Paulo

12 Fevereiro 2014 | 02h12

Embora pelo Twitter e não por meio de uma manifestação formal, a presidente Dilma Rousseff fez bem ao lembrar que "a liberdade de manifestação é um princípio fundamental da democracia e jamais pode ser usada para matar, ferir, agredir e ameaçar vidas humanas, nem depredar patrimônio público ou privado". E determinou à Polícia Federal que ajude as investigações no que for possível, embora no caso ela não tenha muito o que fazer.

Em termos práticos, contudo, o que o governo anunciou por meio do ministro Gilberto Carvalho, da Secretaria Geral da Presidência, não é muito animador. Disse ele, segundo o jornal Valor, que estão sendo mandados "companheiros" para as 12 cidades-sede da Copa do Mundo "para conversar com todos os grupos que têm questões contra" esse evento. Eles explicarão que "os investimentos em logística, ainda que não fiquem prontos para o evento, são um avanço para o País, e que a Copa traz frutos como a geração de empregos". O governo teria pesquisas mostrando que é forte na população a ideia de que só estão adiantadas as obras dos estádios. As de mobilidade urbana, que interessam diretamente a ela, não teriam recebido a mesma atenção, o que aliás qualquer observador isento pode constatar.

É compreensível que o governo - qualquer outro no seu lugar faria o mesmo - se preocupe com possíveis manifestações violentas durante a Copa e tente evitá-las. Elas não fazem bem para o País, nem aqui nem para sua imagem lá fora. Mas o caminho por ele escolhido para isso não parece ser o melhor. O problema não é tanto as manifestações, mas a sua apropriação e desvirtuamento pelos black blocs. É a violência destes, que não parece ter limites, que semeia o medo e cria a ameaça de perda do controle da situação pela polícia. E isso assusta os estrangeiros.

Não se ouviu, porém, ao menos até agora, uma declaração firme e incisiva do ministro Carvalho sobre os black blocs. Cheio de dedos - a esta altura, depois de tudo que aconteceu, é difícil saber por que - para tratar do assunto, ele procurou colocar em pé de igualdade polícia e black blocs: "Esse episódio deveria fazer o País refletir que só a paz é o caminho e que a violência, seja dos policiais ou dos manifestantes, só leva à destruição". Ora, o que está na ordem do dia é a determinação ou não de reprimir com dureza as ações criminosas dos black blocs, não eventuais excessos da polícia, que evidentemente têm de ser evitados. É possível mesmo dizer que é o tamanho do receio dos governadores, por razões eleitorais, de que a polícia cometa excessos que tem estimulado a audácia dos black blocs.

O atrevimento e a insensibilidade desse bando ficaram mais uma vez evidentes no episódio do assassínio do cinegrafista por dois de seus integrantes. No Facebook, o Black Bloc RJ lamenta a morte de Santiago Andrade, que classifica de "acidental", para afirmar em seguida que "nunca aconteceu tanta investigação por um caso como do cinegrafista". Esse bando, se não receber da polícia o tratamento de criminoso que merece, continuará a fazer das suas.

Esse é o único caminho para a solução do problema. Proposta como a do presidente do Senado, Renan Calheiros, de votar rapidamente projeto de lei que tipifica o crime de terrorismo e nele incluir ações como as dos black blocs só vai confundir as coisas. Essas ações nada têm a ver com terrorismo e seus autores não passam de bandidos comuns, como está claro desde que começou seu vandalismo, que culminou agora na morte de Santiago Andrade.

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