Até agora, França evita o pior

A derrota das tradicionais forças políticas de direita, hoje representada pelo partido Republicanos, e de esquerda, pelo Partido Socialista, que dominaram o cenário desde os anos 1970, abre caminho para mudanças que apenas começam a se delinear

O Estado de S.Paulo

25 Abril 2017 | 03h07

A passagem dos candidatos Emmanuel Macron (23,86%), do movimento centrista Em Marcha, e de Marine Le Pen (21,43%), da Frente Nacional, de extrema direita, para o segundo turno da eleição presidencial na França, marcada para 7 de maio, causou alívio na União Europeia (UE) e no mercado financeiro. O temor era de que, como quatro candidatos tinham possibilidade de se habilitar para a fase seguinte, a disputa ficasse entre Le Pen e Jean-Luc Mélenchon, da extrema esquerda.

Os programas de ambos eram vistos com preocupação pela grande maioria dos economistas por serem capazes de acentuar a crise por que passa o país, com inevitável reflexo em seus parceiros europeus, e também pelas suas propostas de rever a permanência na UE. Le Pen propõe a saída da organização, medida que, caso seja eleita, submeterá a um plebiscito, tal como foi feito no Reino Unido. Mélenchon, por sua vez, desejava renegociar a adesão da França à UE em termos que na prática poderiam levar a um mesmo resultado.

Agora, há a possibilidade de evitar esse quadro, pois Macron – que defende políticas liberais e o fortalecimento da UE – sai bem na frente na disputa, com 62% das intenções de voto contra 38% de Le Pen, segundo pesquisas feitas tão logo se confirmou a passagem de ambos para o segundo turno. Além disso, o candidato da direita tradicional, François Fillon, e o socialista Benoît Hamon se colocaram imediatamente a favor de Macron, deixando suas divergências de lado para barrar o caminho à extrema direita, vista como um perigo tanto para a economia e o futuro da UE como para as instituições nacionais.

À parte esses temores, e evitado o que se considerava o pior cenário da disputa entre dois extremos, prevalece a constatação de uma considerável mudança na política francesa. Mesmo que Le Pen perca a eleição – e os próprios partidários de Macron alertam que isto está longe de ser coisa certa –, nunca a Frente Nacional foi tão longe. Ela é hoje um dado incontornável da política francesa e da UE, tendo em vista o avanço da extrema direita em vários países.

A derrota das tradicionais forças políticas de direita, hoje representada pelo partido Republicanos, e de esquerda, pelo Partido Socialista, que dominaram o cenário desde os anos 1970, abre caminho para mudanças que apenas começam a se delinear. A crise da representação dos velhos partidos, presente em vários países – a própria eleição de Donald Trump, mesmo consideradas as peculiaridades dos Estados Unidos, pode ser inserida nesse quadro –, atingiu em cheio a França.

Macron, praticamente um estreante na política, que nunca ocupou cargo eletivo, de 39 anos, ex-ministro da Economia do presidente François Hollande, conseguiu em apenas um ano chegar com vantagem ao segundo turno de uma eleição presidencial. O Partido Socialista, que Macron abandonou em abril de 2016 para criar seu movimento, só obteve 6,35% dos votos para seu candidato, Benoît Hamon. A direita tradicional de François Fillon (19,94%) ficou quase empatada com a extrema esquerda do movimento França Insubmissa, de Jean-Luc Mélenchon (19,62%), criado em fevereiro de 2016, embora seu líder seja um veterano, dissidente do Partido Socialista.

Dentro desse quadro, qualquer que seja o novo presidente, eleito em 7 de maio, terá dificuldade de aplicar seu programa. Tanto um como outro terão de convocar eleições legislativas para tentar formar maioria no Parlamento. E até agora o que parece mais provável é que os partidos tradicionais, mesmo abalados, conseguirão eleger bancadas fortes o suficiente para se tornarem indispensáveis à formação de maioria para governar.

A França já teve experiências de presidentes obrigados a “coabitar”, segundo o jargão de sua política, com um primeiro-ministro de partido diferente, que tem maioria no Parlamento. Este não é o melhor caminho para reerguer a economia do país e reduzir o desemprego na casa dos 10%, responsável pela baixíssima aprovação de Hollande e a derrota acachapante do Partido Socialista.

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