Até quando?

Até quando os políticos vão abusar da paciência do povo? Até quando acham que todo mundo continuará aceitando passivamente justificativas inconsistentes para armações indisfarçavelmente eleitorais? Essa é a questão que lamentavelmente se coloca quando o noticiário político em São Paulo converge para o comportamento de dois políticos de certo peso eleitoral que, descontentes com seus respectivos partidos, planejam mudar de ares: o prefeito Gilberto Kassab e o deputado federal Gabriel Chalita.

, O Estado de S.Paulo

10 Março 2011 | 00h00

Kassab ingressou na política na década de 80, pelas mãos do atual vice-governador Guilherme Afif Domingos, quando este era presidente da Associação Comercial de São Paulo. Filiado ao extinto Partido Libertador (PL), participou da campanha eleitoral de Afif à Presidência da República, em 1989, e em 1993, já então pelo antigo Partido da Frente Liberal (PFL), elegeu-se vereador da capital e em seguida, por duas vezes, deputado federal. Depois de ter sido secretário do prefeito Celso Pitta, elegeu-se vice-prefeito da capital paulista na chapa encabeçada por José Serra e, quando este se lançou ao governo do Estado, em 2006, assumiu a chefia do Executivo municipal, reelegendo-se em 2008.

Agora, pretendendo se candidatar a governador do Estado em 2014, Kassab está empenhado em montar uma base de sustentação política mais eficiente do que a que pode lhe oferecer seu atual partido, o Democratas (DEM). Chegou a pensar em aderir ao PMDB e depois ao PSB. Mas parece ter optado por um casuísmo que contorna a questão da fidelidade partidária: a fundação de um novo partido que participaria do pleito municipal de 2012 e depois se fundiria com o PSB, legenda em franca ascensão no cenário político nacional, que lhe garantiria a candidatura ao Palácio dos Bandeirantes em 2014. Com a vantagem adicional de que, travestido de socialista, passaria a gozar dos benefícios de fazer parte da base de apoio do governo federal.

Se finalmente chegar ao PSB, Kassab não terá o prazer de encontrar-se com Chalita, que está de saída, um ano e meio depois de ter deixado o PSDB. Eleito vereador ainda muito jovem em sua cidade natal, Cachoeira Paulista, Chalita dedicou-se durante alguns anos à carreira acadêmica, a escrever livros e a militar na organização católica Canção Nova. Retornou à política como secretário da Educação de Geraldo Alckmin, de 2003 a 2006. Ainda pelo PSDB, foi o vereador mais votado na capital em 2008. Passou a sonhar então com uma candidatura ao Senado, em 2010, mas a legenda lhe foi negada. Em busca de espaço, deu uma guinada de 180 graus em sua trajetória política, convertendo-se ao socialismo, tal e qual o ex-presidente da Fiesp Paulo Scaff, e elegeu-se deputado federal pelo PSB com expressiva votação.

Agora, certo de que pode fazer boa figura na eleição para prefeito da capital no próximo ano, mas convencido de que, mais uma vez, não terá o aval de seu partido, o por enquanto socialista Chalita cogita novamente de mudar de ares, quem sabe até fundando sua própria agremiação, como Kassab.

Esse panorama, que seria hilariante se não fosse tão tristemente revelador da falta de pudor com que políticos manipulam os acontecimentos em benefício de interesses pessoais, autoriza pelo menos duas conclusões óbvias. Primeira: é muito fácil, e um bom negócio, abrir um partido político. Não é à toa que já existem tantos: quase 30 registrados nacionalmente e outros tantos em processo de organização. Segunda: às favas a coerência - o que vale é voto na urna. Definições como "conservador", "socialista", "liberal", "comunista", "direitista", "esquerdista", etc., são apenas rótulos vazios e descartáveis ao sabor de conveniências momentâneas. Chega a ser perfeitamente normal, assim, que o palhaço Tiririca se torne membro titular da Comissão de Educação da Câmara dos Deputados.

É bom lembrar, de qualquer modo, que ninguém se torna mandatário popular por obra e graça das forças do além. Somos nós, cada um de nós, que os elegemos. Temos, portanto, muito a aprender.

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