Atentado às áreas verdes

As posições do prefeito Fernando Haddad com relação ao meio ambiente constituem mais uma demonstração da distância que separa o seu discurso grandiloquente e bem comportado da realidade dos fatos, que é uma característica de seu governo. Basta comparar sua atitude diante tanto da chamada mobilidade, que tem forte ligação com a questão ambiental, como da preservação das áreas verdes. Mesmo quando parece tomar o bom caminho, como no primeiro caso, ele mete os pés pelas mãos.

O Estado de S.Paulo

17 Fevereiro 2016 | 02h55

Haddad alega investir no transporte coletivo com o objetivo de reduzir o número de carros em circulação e a poluição que eles provocam, o que em princípio seria correto. Mas, como foi levado a isso por demagógicas motivações eleitorais, encheu a cidade de ciclovias desertas e faixas de ônibus multiplicadas sem planejamento. Apresenta-se sem pudor como o campeão da prioridade àquela forma de transporte, fingindo não saber que, quando tratada seriamente, ela é uma unanimidade. Como bom marqueteiro, explora esse comportamento politicamente correto que, embora inconsistente – não houve melhora do transporte nem diminuição da poluição –, dá dividendos a curto prazo, até que a parte iludida da população caia na realidade.

Quando se trata da preservação das áreas verdes, ele nem ao menos tenta disfarçar, como mostra a regulamentação, por decreto assinado no mês passado, da construção de moradias naquelas áreas. Em terrenos de mais de mil metros quadrados, será permitido construir prédios de oito andares. Mesmo em zonas de preservação de mananciais, nas quais o gabarito será de 15 metros. O limite de oito andares, como mostra reportagem do Estado, é o mesmo imposto para o miolo de bairros já adensados, como Perdizes, na zona oeste, e Vila Mariana, na zona sul.

Até o argumento do “social”, usado para justificar esse atentado ao meio ambiente, sofre restrições nas novas regras. Do total das unidades a serem autorizadas, 80% seguirão o modelo de Habitação de Interesse Social (HIS), para famílias com renda de até 6 salários mínimos. Os restantes 20% serão para famílias de classe média, que recebem até 10 salários mínimos, hoje R$ 8,8 mil.

Um exemplo do que vai acontecer com áreas que deveriam ser preservadas são os 193 prédios que serão construídos – com recursos dos governos municipal, estadual e federal, por meio do Programa Minha Casa, Minha Vida – em terreno destinado originalmente ao Parque dos Búfalos, perto da Represa Billings, no Jardim Apurá, zona sul. O conjunto Residencial Espanha, com 3.860 unidades, abrigará cerca de 20 mil moradores, ao custo de R$ 380 milhões. O parque ocupará agora somente 66% do terreno.

Outro projeto, esse a ser executado em 30% de uma área de 1 milhão de metros quadrados, às margens da Represa Guarapiranga, prevê a construção de 3.500 unidades. O terreno foi ocupado em 2013 pelo Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST), que impôs sua vontade – por meio de uma série de agressivas manifestações – tanto ao prefeito como à Camara Municipal, que fez mudança na legislação para tornar viável o projeto.

O destino das áreas verdes da cidade está, assim, à mercê da demagogia do prefeito e do atrevimento de movimentos politizados como o MTST. É correta a observação do representante da ONG Movimento Ousadia Popular, Quintino José Viana: “Não dá para pegar todos os terrenos que virariam parques e fazer moradia popular”. O avanço na solução do grave problema habitacional da capital não deve – nem precisa – ser feito à custa do meio ambiente. Segundo o ambientalista Carlos Bocuhy, “não interessa se o uso que se dará (aos terrenos) será social. A impermeabilização vai ocorrer independentemente do uso”.

Em resumo, como diz o vereador Gilberto Natalini (PV), “o governo Haddad não prioriza o meio ambiente. Pelo contrário”. A herança que ele vai deixar no caso das áreas verdes e de proteção dos mananciais é desastrosa e por isso é bom que, tão logo possível, seja corrigida.

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