Auditoria dos ônibus

O primeiro relatório da auditoria sobre o serviço de ônibus da capital aponta falhas importantes que vêm reforçar as suspeitas de que pode existir ali uma "caixa-preta", cheia de muito mais do que isto que acaba de ser constatado. Não se pode dizer que os primeiros dados divulgados constituam uma surpresa. Afinal, foi a desconfiança de que nem tudo está em ordem nas empresas concessionárias daquele serviço que levou a Prefeitura a contratar esse trabalho, entregue a uma das empresas mais reputadas desse ramo, a Ernst & Young.

O Estado de S.Paulo

20 Novembro 2014 | 02h05

Foram encontradas nada menos do que 640 falhas nas prestações de contas feitas pelas 23 empresas e cooperativas que operam a frota de ônibus e vans que serve a cidade, sob a gerência da São Paulo Transportes (SPTrans), como mostra reportagem do Estado. O estudo da sua contabilidade mostrou que há uma diferença de R$ 38,5 milhões para menos entre os saldos declarados por elas em suas planilhas e o saldo contabilizado pelos auditores, ao refazer as contas.

De uma empresa para outra essas diferenças variam muito. Na Ambiental, por exemplo, constatou-se a existência de R$ 421 mil a mais do que indicavam as planilhas, enquanto na cooperativa Unicoopers foi apontada diferença para menos de R$ 3 milhões. Mas o grande problema está mesmo na Viação Vip, que atende a zona sul, com uma diferença para menos de cerca de R$ 36 milhões. Essa empresa pertence ao Grupo Vip que, além da zona sul, opera também na zona leste. Ele detém quase metade das 1,2 mil linhas da cidade.

As falhas apuradas não param aí. O relatório mostra também que algumas empresas e cooperativas "não apresentaram o conjunto completo de peças contábeis" que deveriam, tais como balanço patrimonial, demonstrações de resultados, de fluxos de caixa, de mutações, de patrimônio líquido e de notas explicativas. Esse é um ponto fundamental, porque sem tais documentos a SPTrans não consegue aferir corretamente os gastos de cada empresa. E tanto o preço da tarifa como o subsídio pago às empresas são calculados com bases nessas contas.

É de esperar que o problema seja resolvido o quanto antes, com as empresas fornecendo os documentos - que já deveriam estar disponíveis -, para que o relatório final da auditoria, que teve de ser adiado várias vezes, seja finalmente entregue em 10 de dezembro. O objetivo do trabalho, encomendado no fim do ano passado, é fornecer elementos para aperfeiçoar o modelo de cálculo da tarifa e dos subsídios, de forma a que os novos contratos com as empresas e cooperativas concessionárias do serviço de ônibus correspondam melhor que os atuais aos interesses da Prefeitura e da população.

O prefeito Fernando Haddad pretende iniciar a licitação para esses contratos entre 60 e 90 dias após o recebimento do relatório. Terá então excelente oportunidade de, com base em visão realista e tecnicamente fundamentada dos custos do serviço, dar o primeiro passo para sua reforma. Entre os passos seguintes, tem destaque a reorganização das linhas, que é essencial para dar maior racionalidade ao sistema e rapidez aos deslocamentos.

As linhas precisam ser atualizadas para corresponder melhor aos interesses dos usuários e não aos dos concessionários, como acontece hoje. As mudanças feitas até agora, além de acanhadas, primaram pela improvisação - nenhum estudo técnico sério e consistente foi exibido, como seria natural - e pelo desprezo pela opinião dos usuários, que delas tomaram conhecimento quando já eram fato consumado.

A mais importante contribuição que a Prefeitura pode e deve dar para a melhoria do sistema de transporte coletivo da cidade é essa reforma - destinada a dar maior conforto e rapidez aos passageiros em seus deslocamentos -, há muito prometida e esperada, mas sempre adiada por sucessivas administrações, que capitularam ante a pressão do poderoso grupo de empresas que controlam o serviço de ônibus.

Esse, sim, é um assunto sério, bem diferente do fogo de artifício das faixas exclusivas para ônibus e as ciclovias.

Mais conteúdo sobre:
Editorial Estadão ônibus

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.