Aumento do consumo pode ser frágil

Existe uma expectativa de que o PIB cresça 2,2% no segundo semestre do ano, o que compensaria a retração ocorrida no primeiro. Ela se baseia no fato de que o consumo das famílias, estimulado pelo governo, e as próprias despesas do governo vão permitir um aumento de 1,4% no nível geral de consumo e de 0,8% das despesas do governo.Trata-se de aposta no motor do consumo para alimentar o crescimento econômico. Se isso tem fundamento, convém lembrar que é muito difícil de sustentar-se a longo prazo e pode ter efeitos negativos.Ontem o IBGE divulgou dados sobre emprego e salário na indústria. Do início do ano até abril houve queda de 4,4% do pessoal ocupado, de 5,3% do número de horas pagas e de 0,5% da folha de pagamentos real. Ora, mesmo com uma retomada da economia, o efeito sobre o emprego é modesto e os reajustes salariais são mais cautelosos.Se se registra um aumento das vendas no varejo é em razão de fatores como transferências governamentais pelo aumento do salário mínimo, expansão do Bolsa-Família, redução da carga tributária no caso de automóveis, produtos da linha branca e material de construção, redução da taxa de juros, novas facilidades de crédito, aumento dos salários no funcionalismo e crescimento dos investimentos públicos. Todos esses fatores, numa estimativa relativamente séria, representam injeção suplementar de R$ 100 bilhões no poder aquisitivo das famílias.Alguns desses fatores se prolongarão no tempo (transferências governamentais, por exemplo), mas são saldados por uma elevação do déficit público, que por sua vez acarreta um custo mais elevado de captações, em razão não apenas da necessidade de maior colocação de títulos da dívida, mas também por repercutirem a alta dos papéis norte-americanos, que servem de referência.A redução do IPI, que teve efeito altamente positivo, não deverá ser mantida pelo governo: o ministro da Fazenda já anunciou sua suspensão no caso de automóveis nos próximos meses. A queda dos preços, favorecida pela valorização do real, poderá não se prolongar e uma retomada das pressões inflacionárias não pode ser descartada em 2010, acompanhada de reação do Banco Central na Selic.Convém ao governo ter uma visão de longo prazo: evitar que o déficit público continue crescendo (com a ameaça de modificações no INSS) e aceitar reduzir a carga tributária. Caso contrário, o consumo poderá cair seriamente.

, O Estadao de S.Paulo

09 de junho de 2009 | 00h00

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