Autossuficiência em vacinas e soros

Só quem sabe, desenvolve e produz pode comprar tecnologias modernas, inovar na produção ou importar a preços razoáveis. A falta de relação entre custo de fabricação e preço do produto é um truísmo no mercado farmacêutico. Os componentes desta desconexão dizem relação com os investimentos que precedem o lançamento de um novo medicamento no mercado, e não com o custo de produção. Esses investimentos, difíceis de quantificar e sempre pouco transparentes, se relacionam com ciência, tecnologia, ensaios clínicos e marketing. É por isso que autossuficiência nacional em vacinas e soros requer instituições que simultaneamente gerem ciência, desenvolvam processos e produzam.

Hernán Chaimovich, Isaías Raw e José da Silva Guedes, O Estado de S.Paulo

21 Setembro 2010 | 00h00

Invenções científicas são rebeldes e imprevisíveis por natureza. Quando a quantidade de ciência produzida é grande, aumenta a probabilidade de que um dos milhares de descobertas - que sempre ajudam a entender o universo - gere produto. A transformação de uma invenção num produto tem custo alto, é lenta e difícil, em especial quando se trata de um medicamento, soro ou vacina. Os primeiros passos têm que ver com a transformação da descoberta numa substância; ensaios de laboratório e clínicos posteriores vão permitir certificar a segurança e a efetividade do potencial medicamento. Em algum lugar desse percurso a fábrica tem de ser construída (ou adaptada) e os processos produtivos, certificados por agência competente, que também vai decidir se o produto merece registro, isto é, se pode ser usado para tratamento. Os investimentos necessários para chegar a um produto são vultosos e a quantidade de recursos humanos qualificados envolvidos é grande.

O processo de criação científica, tal como o longo processo de transformação/invenção/produto, só pode ser dominado fazendo. O Brasil, nas últimas décadas, atingiu uma densidade de cientistas que garante que o País pode apreender a criação global em qualquer campo da ciência, pois participamos de todo esse esforço por compreender o nosso universo. Por isso é possível hoje que a sociedade seja informada, com vozes brasileiras, do que é relevante da ciência produzida no mundo, inclusive a nossa. Ninguém, hoje, pode vender gato científico como se fosse lebre.

No terreno dos produtos imunobiológicos podemos imaginar que, em países que não sabem, desenvolvem e produzem, gatos passaram por lebres na compra de tecnologias obsoletas, no dispêndio de produtos com preços exagerados e na adoção de processos que não podem ser modernizados. No Brasil, ministros da Saúde como, por exemplo, Adib Jatene, José Serra e José Gomes Temporão formularam projetos arrojados de autossuficiência em imunobiológicos que permitiriam a independência necessária à implantação de programas nacionais de vacinação universal e gratuita. Esses projetos têm um forte componente de inovação e desenvolvimento tecnológico que pode permitir ao País completar o percurso entre a invenção e o produto.

É fácil compreender por que o Brasil precisa produzir soros contra venenos de cobras e outros animais peçonhentos. Em muitos casos esses animais são diferentes dos de outras regiões e, portanto, os soros não estão disponíveis no mercado. A produção nacional de hemoderivados (produtos produzidos a partir de sangue) é também simples de explicar, pois, por exemplo, as imunoglobulinas de doadores brasileiros, expostos a doenças presentes no País, são mais eficazes para tratar brasileiros. Sem falar que exportar sangue para importar seus produtos derivados não é uma política racional para um país continental que quer ser tecnologicamente desenvolvido. A produção nacional de vacinas é, por outro lado, uma necessidade estratégica que pode tornar o País independente de decisões de mercados globais, que nem sempre levarão em conta as nossas necessidades.

O Instituto Butantan, com o apoio da Fundação Butantan, assumiu todos esses desafios. Sem pretender ser o único produtor, o sistema Butantan hoje fornece soros antipeçonhentos, vacinas e completa uma fábrica de hemoderivados. Esse trabalho em prol da saúde pública só foi possível porque a conjunção pesquisa-desenvolvimento-produção foi estratégica desde que o projeto começou. A experiência adquirida permite que o instituto, quando compra tecnologia, saiba escolher a que permite real controle e aperfeiçoamento. Quando negocia patentes e direitos sobre invenções, pode fazê-lo com qualidade, pois já acompanhou o processo tecnológico para chegar ao produto. Hoje produzimos vacinas de tétano, difteria, coqueluche e hepatite B recombinante. Até o fim do ano produziremos vacina contra influenza.

Mas o Butantan inova, produzindo novas vacinas. A vacina contra raiva produzida em células deve começar a ser fornecida em 2012, pois, além de dominar a tecnologia, a fábrica entrará em produção em dois anos. Nosso portfólio de novas vacinas em desenvolvimento inclui coqueluche atóxica (Plow), vacina pentavalente contra rotavírus, tetravalente contra dengue, proteica contra pneumococo, bem como vacinas combinadas para a infância. Este trajeto foi possível pelo clima de criação científica existente no Instituto Butantan, pelo apoio da Fundação Butantan, pelos investimentos do Estado de São Paulo e da Federação e pela dedicação do pessoal envolvido na invenção, no desenvolvimento e na produção.

Neste momento, em que se decidem os destinos políticos do País, a manutenção e o crescimento de sistemas como o Butantan são tema a ser incorporado à agenda de todos os candidatos. Somente um sólido apoio à inovação e ao desenvolvimento tecnológico para saúde, criando independência tecnológica, pode garantir que planos se transformem em realidade, como a demonstrada pelo Butantan.

RESPECTIVAMENTE, SUPERINTENDENTE-GERAL, PRESIDENTE DO CONSELHO TÉCNICO-CIENTÍFICO E PRESIDENTE DA FUNDAÇÃO BUTANTAN

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