Avaliação de médicos

Mais da metade dos 2.891 recém-formados em medicina no Estado de São Paulo não atingiu o porcentual mínimo de acertos no exame de habilitação profissional aplicado pelo Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp) em 2014. A prova, que é de nível médio, abrange as principais áreas de especialização médica e as perguntas são extraídas de provas equivalentes realizadas por entidades médicas de outros países.

O Estado de S.Paulo

12 Fevereiro 2015 | 02h05

Segundo o Cremesp, os recém-formados oriundos de universidades públicas tiveram desempenho melhor do que os que estudaram em universidades particulares. No primeiro caso, o índice de reprovação foi de 33% - no segundo, de 65,1%. Das 30 faculdades de medicina paulistas, somente 10 - das quais 7 são públicas - atingiram a pontuação mínima. As áreas de conhecimento com maior porcentual de erros foram Clínica Médica, Ciências Básicas e Pediatria.

"É uma surpresa desagradável saber que os alunos saem da faculdade sem saber coisas básicas. Esses profissionais com má formação geralmente não passam na prova de residência e vão atender em pronto atendimento ou em pronto-socorro", diz o presidente do Cremesp, Bráulio Luma Filho.

O órgão também avaliou 468 médicos formados em outras unidades da Federação, e que se submeteram ao exame de habilitação do Cremesp apenas para obter o registro profissional em São Paulo. O índice de reprovação foi ainda maior: 63,2%. A maioria dos reprovados estudou em instituições privadas. "São escolas que nem sempre têm corpo docente qualificado, laboratórios, biblioteca e hospital-escola", diz o diretor do Cremesp, Renato Azevedo Júnior. O órgão não divulga o resultado por escola.

Esses números seriam preocupantes caso os médicos reprovados fossem proibidos de exercer a profissão, como ocorre com os candidatos não aprovados nos exames de habilitação da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB). O caso da medicina, contudo, é diferente do da advocacia. Pela legislação em vigor, todos os participantes das provas aplicadas por um Conselho Regional de Medicina têm o direito ao registro profissional, independentemente de seu desempenho. A única obrigatoriedade é comparecer ao exame e responder às perguntas. Por isso, há recém-formados que veem o exame como um fardo burocrático, não se preocupando em respondê-lo corretamente. Alguns chegam até a sabotá-lo, dando respostas erradas a indagações corriqueiras.

Os números do Cremesp, portanto, estão longe de refletir a realidade do ensino médico. Por mais que o órgão defenda que os formandos reprovados retornem às faculdades de medicina, o problema está no modelo de exame de habilitação por ele aplicado, que tem problemas estruturais. Originariamente, a prova - que era facultativa e envolvia perguntas de múltipla escolha - foi concebida para avaliar se quem queria trabalhar no Estado de São Paulo sabia o mínimo necessário para exercer a medicina. Há três anos, o exame passou a ser obrigatório sem, contudo, que os resultados negativos inviabilizem o exercício da medicina. Por isso, esse modelo de prova carece de credibilidade e tem sido duramente criticado por professores de medicina.

Segundo eles, os exames de habilitação permitem que as corporações profissionais controlem o fluxo de ingresso de novos profissionais no mercado de trabalho, o que - pela lei da oferta e da procura - pode acabar levando à queda do nível médio de remuneração. Para afastar esse risco, muitos professores de medicina propõem uma avaliação que não seja realizada uma única vez, após a conclusão do curso, mas acompanhando progressivamente as atividades educacionais. Também defendem provas de conhecimento que não sejam baseadas em perguntas de múltipla escolha. E reivindicam avaliações institucionais que, além da capacitação dos formandos, valorizem pesquisa e titulação. O controle de qualidade tem de ser feito durante todo o curso, nas salas de aula, nas residências médicas e nos hospitais universitários, afirmam esses professores. No que têm toda a razão.

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