Avançando no nevoeiro

O avanço é lento, mas sustentado, apesar do ambiente inseguro

O Estado de S.Paulo

20 Outubro 2018 | 03h00

O Brasil avança, apesar do nevoeiro político, e continua a afastar-se do atoleiro onde foi jogado há pouco mais de três anos pela incompetência e pelos abusos de um governo petista. Essa é a mensagem mais positiva e mais clara embutida no Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br). O avanço é lento, mas sustentado, apesar do ambiente inseguro. Em agosto o indicador foi 0,47% maior que em julho, na série com ajuste sazonal. Foi a terceira alta depois do tombo de maio, quando a crise no transporte paralisou várias atividades e o índice caiu 3,33%. Além disso, a última revisão apontou números pouco mais animadores que os divulgados inicialmente. O índice de junho foi revisto de +0,57% para +0,65%, e o de julho, de +3,42% para +3,45%. O IBC-Br, conhecido como prévia do Produto Interno Bruto (PIB), parece apontar um terceiro trimestre melhor que o segundo, quando a economia cresceu 0,2%, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Os negócios continuaram mais animados que no ano anterior, segundo os dados do BC. O índice de agosto foi 2,50% superior ao de um ano antes. Nos primeiros oito meses a atividade foi 1,28% superior à de janeiro a agosto de 2017. O crescimento em 12 meses ficou em 1,50%. O resultado mensal superou a mediana (0,25%) das estimativas coletadas no mercado pela Agência Estado. Segundo alguns analistas, o número de agosto pode ser um sinal de maior dinamismo no terceiro trimestre. Mas a surpresa, embora muito bem-vinda, ainda parece insuficiente para afetar as projeções correntes no mercado para o crescimento do PIB neste ano.

O BC recolhe semanalmente as avaliações de cerca de cem instituições financeiras e consultorias. Os dados são reunidos no boletim Focus. Nas últimas quatro semanas a mediana das projeções de crescimento econômico recuou de 1,36% para 1,34%. Se a estimativa estiver correta, o resultado final de 2018 será inferior ao apontado pelo BC para os 12 meses terminados em agosto (1,50%).

O IBGE ainda vai divulgar os dados setoriais de setembro. Os da indústria devem sair no começo de novembro. Por enquanto, nada autoriza avaliações muito mais otimistas que as conhecidas até agora. Isso vale para o balanço do terceiro trimestre e para as expectativas em relação ao período de janeiro a dezembro. Os empresários continuam mostrando cautela. É normal um acréscimo de contratações no segundo semestre para o aumento de produção e de vendas no fim de ano. Até agora as contratações temporárias foram muito moderadas, segundo as primeiras informações coletadas pelos meios de comunicação.

Os últimos números do mercado de trabalho mostram a persistência de muito desemprego, apesar de alguma melhora nos últimos meses. Mais de 12 milhões continuam buscando uma ocupação, segundo os dados conhecidos até agora. Isso limita duplamente a recuperação do consumo. O desemprego restringe a massa de rendimentos e, além disso, afeta as expectativas dos consumidores. Essas expectativas podem ser melhores que as do ano passado ou do primeiro trimestre deste ano, mas as famílias permanecem diante de um quadro de ampla incerteza.

As vendas de fim de ano poderão até ser maiores que as de 2017, mas a diferença, segundo lojistas entrevistados pela imprensa, deverá ser muito pequena. Poucas contratações temporárias também afetarão o potencial de consumo nos próximos meses.

Qualquer melhora do quadro dependerá dos primeiros movimentos do vencedor do segundo turno. Promessas de soluções simples e indolores para os problemas nacionais poderão entusiasmar parte do público. Pessoas sensatas – e isto inclui empresários informados e com pés no chão – dificilmente se deixarão envolver pelo anúncio de um paraíso de prosperidade facilmente acessível. Um discurso realista e bem fundado na experiência poderá, muito mais provavelmente, alimentar a confiança para formar estoques, contratar e investir em potencial produtivo e em competitividade.

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