Avanço chinês na Argentina

Costuma-se atribuir à crise econômica da Argentina a significativa queda das exportações do Brasil àquele país verificada nos últimos tempos. Embora seja uma boa explicação, trata-se apenas de uma parte do problema, não só porque a crise parece atingir majoritariamente a importação de produtos brasileiros, como porque a China está tomando cada vez mais o espaço comercial antes ocupado pelo Brasil no mercado vizinho.

O Estado de S.Paulo

08 Agosto 2014 | 02h05

O valor dos embarques da China para a Argentina dobrou em seis anos, segundo o jornal Valor, que usou estatísticas oficiais argentinas. A China já é o segundo maior exportador para a Argentina, com 15% do total, atrás do Brasil, com 26%.

Por conta da crise, a Argentina reduziu suas importações globais em 8% no primeiro semestre deste ano em relação ao mesmo intervalo de 2013, mas a compra de produtos chineses cresceu 2% naquele período. Mesmo as vendas do Nafta, bloco integrado por Estados Unidos, Canadá e México, cresceram 9%. Já as importações argentinas de produtos do Mercosul caíram 18%. A queda das vendas de produtos brasileiros foi ainda maior, atingindo 20,4%. Somente em julho passado, o recuo foi de 33,5%.

É ao Brasil, portanto, que cabe a maior parte da conta do ajuste argentino, pois o vizinho é um dos principais mercados consumidores dos produtos brasileiros, especialmente veículos e autopeças - cujas vendas para a Argentina caíram espantosos 57,6% no mês passado, apesar da renovação do acordo automotivo muito vantajoso para os argentinos.

A China entra no mercado argentino basicamente com bens de capital (máquinas e equipamentos) e bens intermediários (manufaturados ou matérias-primas usados na produção de outros bens). A Argentina ampliou em cerca de 10% a importação desses produtos chineses, enquanto reduziu as importações do Mercosul em 21% no primeiro caso e em 7% no segundo.

Essa realidade diz respeito tanto à situação precária da Argentina e à agressividade chinesa quanto à falta de competitividade brasileira e à teimosia do governo petista - que se mantém apegado a compromissos políticos e ideológicos com um vizinho que não se constrange em afrontar as regras do Mercosul quando elas não atendem a seus interesses.

Ao mesmo tempo que impõe diversos empecilhos para os negócios com os brasileiros e para que o Mercosul deslanche, a Argentina, no mês passado, transformou a China em "aliado integral", categoria que até então era reservada apenas ao Brasil.

Na recente visita que fez a Buenos Aires, o presidente chinês, Xi Jinping, firmou um acordo para financiar a reforma do sistema de transportes da Argentina - que receberá trens chineses - e para construir duas hidrelétricas, tudo a um custo de US$ 75 bilhões. Além disso, ofereceu uma linha de crédito para importar produtos agrícolas argentinos, no valor de US$ 11 bilhões.

São esses investimentos e essa capacidade de financiamento, com os quais o Brasil não pode competir, que garantem à China condições privilegiadas quando negocia a venda de seus produtos à Argentina. Em alguns casos, os contratos de investimento chineses embutem a contrapartida da compra de seus produtos. Dispondo de mais de US$ 3 trilhões em reservas, a China está confortável para oferecer financiamento aos argentinos, que enfrentam crescente escassez de dólares para fazer seus negócios.

Mas não é apenas o poder financeiro chinês que está fazendo a diferença. Some-se a ele a incapacidade do governo petista de tratar a relação com a Argentina de forma pragmática. Os erros da atual administração resultaram na excessiva dependência do mercado argentino, especialmente para a venda de veículos e autopeças. Sem observar os reais interesses nacionais, o governo petista vem cedendo a todas as chantagens argentinas nas negociações comerciais, pois acredita que, como "líder regional", deve ser benevolente com seus parceiros de Mercosul. Enquanto isso, os chineses estão cada vez mais à vontade na Argentina.

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