Baderna toma conta da cidade

A baderna que tomou conta de boa parte da capital paulista terça e quarta-feira é mais uma prova de que manifestações e protestos, antes uma forma de expressar legitimamente opiniões e reivindicações, vêm se transformando em atos de selvageria que transtornam a vida da população e causam grandes prejuízos à maior cidade do País. São Paulo ficou entregue a grupos de taxistas contrários à regularização da atuação do Uber e a militantes dos chamados movimentos sociais e outros baderneiros por eles arrebanhados, inconformados com a marcha inexorável do processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff.

O Estado de S.Paulo

12 Maio 2016 | 03h00

Embora atuando separadamente, os dois grupos – que competiram em violência – planejaram muito bem suas ações, escolhendo a dedo os locais de protesto para perturbar o máximo possível o funcionamento da cidade. E, como em alguns casos a escolha daqueles locais coincidiu, os danos foram multiplicados. Os taxistas começaram pelos pontos de óbvio interesse para eles, como as sedes da Prefeitura e da Câmara Municipal, ambas situadas em região de intenso movimento, no centro, cuja paralisação tem reflexos no trânsito em ampla área da cidade.

Tanto os taxistas enfurecidos como os baderneiros travestidos de manifestantes políticos programaram suas ações repetindo a tática da formação de pequenos grupos de 50 a 100 integrantes, capazes, como mostra a experiência, de bloquear importantes vias, seja com carros estacionados em fila, seja com a queima de pneus. O presidente do Sindicato dos Motoristas nas Empresas de Táxi (Simdetaxi), Antônio Matias, ameaçou, depois de proclamar, como se isso lhe coubesse, que a proposta do prefeito Fernando Haddad para o Uber e outros aplicativos semelhantes é inconstitucional: “Vamos acampar na Prefeitura e vamos fechar os aeroportos e rodoviárias”.

Não conseguiram tudo que queriam, mas também não ficaram longe disso. Tomaram as vias de acesso aos aeroportos de Congonhas e Cumbica – Avenida 23 de Maio, Marginal do Tietê e acesso à Via Dutra – e ao Terminal Rodoviário do Tietê. Na zona sul, bloquearam a Marginal do Pinheiros, perto da Ponte do Morumbi.

As cenas de violência na 23 de Maio, na terça-feira, transmitidas pela televisão, deram uma ideia da prova a que tiveram de se submeter os paulistanos obrigados a passar por ali. Um motorista que, acuado, tentou furar o bloqueio para escapar da fúria dos taxistas, tendo esbarrado em alguns deles, teve o carro depredado, do qual por pouco não foi retirado à força e agredido.

Os baderneiros contra o impeachment – que, tal como Matias, se julgam habilitados a decidir o que é legal e ilegal e o que é ou não golpe – também promoveram atos violentos, embora em pontos diferentes, em quase todas as vias atacadas pelos taxistas. Tudo com o objetivo de, interrompendo o trânsito em locais estratégicos, infernizar a vida dos paulistanos, utilizados friamente como reféns de seus desatinos.

Por dois dias seguidos. E as aflições da população poderão continuar além disso, porque, com ou sem participação dos taxistas, os militantes dos ditos movimentos sociais, na iminência de perder o patrocínio do governo que os sustenta, prometem continuar, sabe-se lá até quando, com os seus violentos – e agora também patéticos – protestos “contra o golpe”, em São Paulo e outras grandes cidades do País.

A ação desses dois grupos, unidos pelo total desrespeito e desprezo pelos direitos dos paulistanos – de ir e vir, trabalhar e estudar –, não deixa mais dúvidas de que protestos desse tipo não merecem esse nome, porque não passam de mero caso de polícia.

Compreende-se a cautela das autoridades, que não querem cair na armadilha dos que buscam uma vítima para transformar em mártir. Mas isso não pode impedi-las de tratar com o indispensável rigor os atos violentos, que hoje qualquer grupelho mais ousado e atrevido se sente à vontade para praticar contra a população.

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