Bancada do bom senso

Superação decisiva da crise poderá vir da renovação na condução do País, em outubro

MARIO CESAR FLORES*, O Estado de S.Paulo

28 Abril 2018 | 03h00

Ressalvados alguns períodos de desenvolvimento significativo, o desempenho da condução do Brasil tem-se mostrado aquém do adequado à evolução em curso desde 1930, de país rural com democracia oligárquica e 40 milhões de habitantes para país majoritariamente urbano com democracia de massa e 207 milhões de pessoas. Incidentes no desempenho insatisfatório: na pós-redemocratização (1985) as fantasias de verniz socializante, inerentes à democracia de massa, em particular quando de massa culturalmente frágil, vêm propiciando sucesso eleitoral às ilusões do populismo redentorista; e nas últimas décadas a política como missão balizada por interesses nacionais vem cedendo à política como atraente emprego da vida, cuja manutenção, dependente do voto do povo, pode exigir dos agentes políticos decisões comumente em dissonância com a conveniência nacional.

A crise política, econômica e social, exponenciada em anos recentes, assusta. Você sintoniza a TV em noticiário e é massacrado por avalanche de descalabros de toda ordem: desastre fiscal, grave na União, catastrófico no Rio de Janeiro e perto disso em alguns Estados e muitos municípios; incompetência e corrupção pandêmica (em destaque o conluio viciado do poder público com o capital) na política e na administração pública; caos na saúde e deficiências graves na educação; infraestrutura à deriva – obras sensacionalizadas pela política, inacabadas ou nem sequer iniciadas, estradas em mau estado, transporte público afrontoso; desemprego em nível dramático; segurança pública beirando a tragédia e já tragédia no Rio de Janeiro (criminalidade, violência, vandalismo e desrespeito à lei, do crime hediondo ao delito banal); sistema prisional desumano; e por aí vai...

O povo compartilha a responsabilidade pelo quadro trágico ao escolher a condução política, mas a euforia folgazã Brasil afora sugere que a corresponsabilidade é ignorada. Você muda de estação e passa a assistir à anestesia mental do povo. A avalanche agora é de carnaval exuberante e réveillon pirotécnico, com apoio no dinheiro público que falta nas escolas e nos hospitais, passeatas gay e exploração sensacionalista da homossexualidade e do transgênero, baladas funk (com participantes armados...), exacerbação emocional do futebol, publicidade vulgar e consumismo compulsivo, praias cheias, milhões de carros nas estradas na volta do feriadão, e por aí vai... – manifestações em que frequentemente a euforia licenciosa é confundida com a liberdade democrática.

Se perguntarmos a participantes do circo anestésico sua opinião sobre os problemas nacionais, a maioria declarar-se-á vítima deles e queixar-se-á da condução do País – queixa não corroborada pelo voto, que elege/reelege a condução insatisfatória. Nossa propensão à irresponsabilidade da falácia cultural de Estado onipotente e mágico induz esse paradoxo: a vociferação por mais recursos na saúde, na educação, na segurança e na infraestrutura é complementada por manifestações em geral (as exceções dependem do status social e econômico do manifestante) contrárias a medidas de restauração da saúde fiscal (austeridade restritiva, impostos, correção da Previdência, privatizações, reonerações, redução de subsídios, eliminação de privilégios...) e sem elas não há como atender às demandas. A consequência do paradoxo é obvia: a despeito da evidência do perigo, projetos de austeridade e de saneamento fiscal são protelados ou mutilados – haja vista os tropeços sofridos pela reforma da Previdência.

A continuarem os óbices que impedem a redução da crise ou até a agravam, por convicção sincera (que existe, ainda que frequentemente equivocada) ou por pressão de injunções eleitorais, mais dia, menos dia, o País poderá vir a ser compulsado à adoção de medidas salvacionistas provavelmente até radicais.

Medidas dessa natureza precisam de algum grau de autoridade. Não necessariamente a ditadura, mas, no mínimo, algum amparo legal que respalde a sua adoção. Talvez algo como uma lei habilitante, de aplicação temporária e restrita a assuntos críticos, concedida “democraticamente” pelo Congresso Nacional, pressionado pela realidade; para camuflar o sacrifício, provavelmente o já pretendido “controle social da mídia”... A população, assustada com a verdade – ao menos sua parcela capaz de compreendê-la –, será tolerante. Haverá até quem se manifeste simpático à heterodoxia.

Embora induzida pela ameaça de caos, a solução (?) heterodoxa agride a democracia e seus desdobramentos são inseguros – haja vista a Venezuela, com sua Lei Habilitante de 2015; caso dramático: a alemã de 1933. Respeitado o nosso paradigma constitucional e democrático, a superação decisiva da crise e a construção de sistemática que iniba outras no futuro poderão ocorrer se as eleições de outubro vierem a promover razoável renovação na condução do País. Na Câmara dos Deputados e no Senado, com a construção de maiorias suprapartidárias sensatamente balizadas pela realidade. Se a convergência de convicções ou interesses já produz a unidade suprapartidária das bancadas evangélica, da bala e rural, por que não a bancada suprapartidária do bom senso, direcionada pelos interesses nacionais?

Enfim, medidas para a solução de nossos problemas de fato nem sempre (ou até raramente) são simpáticas ao povo, propenso a se pautar pelo interesse imediato, ignorando a ameaça de tragédia no futuro. E compreensivelmente, (na visão política hoje prevalecente) os atores políticos têm sido influenciados por essa propensão. Resta “torcer” para que o voto condicionado pelo imediato e pelo ópio das fantasias (em particular, hoje, as populistas) influentes no nosso imaginário popular vulnerável à ilusão venha a ceder espaço à emersão protagônica da bancada do bom senso.

* MARIO CESAR FLORES É ALMIRANTE

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