Banho de sangue na Líbia

A insurreição popular contra o ditador líbio Muamar Kadafi completou ontem uma semana sob "uma obscena quantidade de disparos", como um morador da capital, Trípoli, descreveu a matança indiscriminada de seus concidadãos. A chacina foi levada a cabo, do ar e em terra, pelas forças do regime e por mercenários. A repressão, que parecia ter chegado ao auge na noite de segunda-feira, deixou centenas de mortos e feridos - os números são imprecisos nesse país praticamente segregado, onde os jornalistas estão proibidos de entrar e as comunicações são precárias.

, O Estado de S.Paulo

23 Fevereiro 2011 | 00h00

Duas coisas, no entanto, são dadas como certas pela quase totalidade dos observadores estrangeiros: os dias de Kadafi estão contados e ele resistirá até o amargo fim, nem que para isso tenha de submeter a Líbia a um banho de sangue, o que os depostos autocratas da Tunísia e do Egito provavelmente não fariam, mesmo que pudessem. A principal diferença, à parte todas aquelas entre os três países, é que Zine El Abidine Ben Ali e Hosni Mubarak eram criminosos políticos e cleptocratas - mas não "cachorros loucos", como o então presidente americano Ronald Reagan chamou Kadafi, em 1986. Líder do golpe que acabou com a monarquia na Líbia, 17 anos antes, ele entrou em um surto psicótico do qual não se livrou até hoje, passadas quatro décadas.

Com a fantasia de suplantar o egípcio Gamal Abdel Nasser na pretendida condição de líder do mundo árabe, o coronel líbio inventou doutrinas revolucionárias, imitou o chinês Mao Tsé-tung escrevendo um Livro Verde sobre o "socialismo islâmico", implantou uma ditadura não menos feroz que a de Saddam Hussein no Iraque e se tornou o primeiro chefe de Estado a patrocinar ostensivamente o terrorismo no mundo. Depois que as sanções internacionais tiraram o fôlego da economia líbia, movida a petróleo, pagou fortunas em indenizações, fez as pazes com o Ocidente, abriu mão de seus projetos nucleares e reatou com os EUA, que o promoveram a aliado na guerra ao terror.

Foi visitado pelo então primeiro-ministro britânico Tony Blair e pela secretária de Estado Condoleezza Rice. Em 2009, na sede da ONU, trocou um aperto de mãos com um sorridente Barack Obama. Já então empresas americanas haviam assinado contratos milionários com a Líbia para dotar as suas Forças Armadas de sofisticados sistemas de comunicação. No ano passado, a Grã-Bretanha vendeu ao país mais de £ 200 milhões em equipamentos bélicos. Mais de uma vez Kadafi foi acolhido em Roma como amigo íntimo pelo notório premiê Silvio Berlusconi. A ENI, a estatal italiana do petróleo, assim como a britânica BP haviam se instalado na Líbia.

Ali, porém, só mudou a fisionomia do tirano, que deixou crescer o bigode e tingiu os cabelos (mantendo o uniforme de opereta, cravejado de medalhas). A selvageria do regime continuou idêntica. Isso não impediu que assomasse o pior dos mundos possíveis para qualquer déspota. É quando as suas vítimas perdem o medo e tomam as ruas. As manifestações na Líbia - cuja segunda cidade, Benghazi, passou para o controle dos revoltosos - só se intensificaram a cada ciclo de concentrações, tiros, mortes e sepultamentos. Ontem, uma testemunha disse ter visto pessoas tirando as camisas e expondo o peito às balas dos milicianos. O ciclo foi reforçado pelas ameaças do filho de Kadafi, Saif al Islam, de desencadear uma guerra civil, numa desalinhavada fala pela TV, domingo à noite.

Na segunda-feira, o pai, usualmente verborrágico, se deixou filmar durante 20 segundos sob um guarda-chuva. Ele apenas queria desmentir os rumores de que tinha viajado para a Venezuela do seu aprendiz de histrião Hugo Chávez e lamentar que a chuva o impedia de estar com os seus partidários no centro de Trípoli. Ontem, fez um interminável e desconexo discurso na televisão, atribuindo a "agentes estrangeiros" a revolta contra sua ditadura. Partidários é o que ele tem cada vez menos. O ministro da Justiça e diversos diplomatas, incluindo os da missão líbia na ONU, renunciaram. Mas, salvo uma reviravolta a esta altura inimaginável, Kadafi lutará até o último de seus aliados.

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